Em seu próprio relatório técnico, a Anthropic chamou as capacidades do modelo de um “acerto de contas para a cibersegurança”, observando que ele poderia identificar “vulnerabilidades de alta gravidade” nos principais sistemas operacionais e navegadores em um nível que tornava seu lançamento público irresponsável . Em vez disso, a empresa optou por controlar o acesso por meio de um programa apenas para convidados, o Project Glasswing, que em junho de 2026 havia crescido de cerca de 40 parceiros avaliados para aproximadamente 200 organizações, incluindo Amazon Web Services, Microsoft, JPMorgan Chase e CrowdStrike
.
Desde o momento do anúncio, a Anthropic afirmou que não tinha planos de lançar o Mythos ao público . O motivo declarado era simples: um modelo tão bom em encontrar falhas de dia zero poderia ser usado como arma por hackers mal-intencionados ou agentes estatais para atacar infraestruturas críticas em larga escala
. A empresa classificou a restrição como “aceleração defensiva” — dar aos defensores uma vantagem inicial antes que os atacantes pudessem alcançá-los
.
Isso não era uma hipótese. No final de abril de 2026, a Anthropic confirmou que estava investigando relatos de que usuários não autorizados haviam conseguido acessar o Mythos por meio do ambiente de um fornecedor terceirizado . O incidente reforçou a posição da empresa de que a disponibilidade geral era incompatível com a segurança.
Em 9 de junho de 2026, a Anthropic mudou de rumo — parcialmente. Ela lançou o Fable 5, uma versão pública “segura” da classe Mythos, com limitações para aplicações sensíveis . A empresa o descreveu como uma forma de o público testar a tecnologia de classe Mythos, mantendo barreiras de proteção que bloqueavam o uso indevido. Ao mesmo tempo, a Anthropic ofereceu o Claude Mythos 5 sem restrições aos seus parceiros já avaliados
.
O lançamento foi amplamente coberto como um passo cauteloso em direção à abertura. O Guardian relatou que o Fable 5 tinha “limitações em sua aplicação em campos sensíveis”, enquanto a Fortune o descreveu como a Anthropic “disponibilizando seu primeiro modelo de nível Mythos ao público em geral” . A distinção entre uma versão pública segura e um modelo completo apenas para parceiros parecia ser a estratégia da Anthropic para gerenciar o risco.
Às 17h21 no horário da costa leste dos EUA em 12 de junho de 2026 — três dias após o lançamento do Fable 5 — o governo Trump emitiu uma diretiva de controle de exportação para a Anthropic. A ordem exigia que a empresa “suspendesse todo o acesso ao Fable 5 e ao Mythos 5 por qualquer cidadão estrangeiro, dentro ou fora dos Estados Unidos, incluindo funcionários estrangeiros da Anthropic” .
O Departamento de Comércio enviou a carta, mas o governo citou amplas “autoridades de segurança nacional” em vez de qualquer estatuto específico . O alcance da ordem foi extraordinário: aplicava-se a cidadãos estrangeiros fisicamente presentes nos EUA, incluindo pessoas que ajudaram a construir os modelos
. Na lei de controle de exportação dos EUA, isso é conhecido como a regra de “exportação presumida” — compartilhar tecnologia controlada com um cidadão estrangeiro dentro do país conta como exportá-la para o exterior
.
A Anthropic determinou que não poderia impor de forma prática uma restrição por nacionalidade em um produto comercial. A única maneira de cumprir a ordem foi desligar o Fable 5 e o Mythos 5 para todos . Na noite de 12 de junho, a Anthropic anunciou o desligamento em sua conta oficial no X e confirmou que o acesso aos seus outros modelos Claude não foi afetado
.
A Anthropic cumpriu a ordem, mas o fez publicamente afirmando que o governo “errou feio nessa” . A empresa argumentou que cortar o acesso de pesquisadores de segurança legítimos — incluindo cidadãos estrangeiros que contribuem pesadamente para a força de trabalho de IA — tornaria a internet menos segura, em vez de mais
. O CEO Dario Amodei recebeu a carta diretamente do Secretário de Comércio, Howard Lutnick
.
A disputa destacou uma contradição mais profunda. A Anthropic já constava em uma lista negra do Pentágono que classificava a empresa como perigosa demais para uso governamental e, agora, o Departamento de Comércio restringia simultaneamente seus modelos mais avançados para uso internacional .
Alguns relatos sugerem que o gatilho específico para a ordem pode ter sido uma vulnerabilidade de "jailbreak" (um método para burlar as restrições de segurança) no Fable 5. O jornal The Independent relatou que o CEO da Amazon, Andy Jassy, levantou preocupações com autoridades dos EUA sobre essa brecha, que poderia permitir que o modelo realizasse tarefas além de suas salvaguardas pretendidas . A Anthropic rebateu, argumentando que “uma potencial e limitada falha de jailbreak” não deveria justificar o recolhimento de um modelo comercial
. O governo não confirmou publicamente sua preocupação de segurança específica
.
A autoridade legal específica invocada pelo governo não foi detalhada publicamente, embora provavelmente esteja enraizada na Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional (IEEPA) ou nos Regulamentos de Administração de Exportações . A inteligência precisa ou os eventos que motivaram a ação de 12 de junho também não foram divulgados. O TechCrunch observou que os repetidos avisos da própria Anthropic sobre o perigo do Mythos podem ter saído “pela culatra”, atraindo a atenção do governo e levando a uma resposta mais agressiva do que a empresa esperava
.
A amplitude da ordem levanta questões em aberto. Ela se aplicava a “todos os cidadãos estrangeiros”, sem distinção pública entre estados adversários e aliados como Reino Unido, Japão ou Austrália. Não está claro se a Anthropic pode, eventualmente, lançar uma versão exclusiva para os EUA dos modelos de classe Mythos. E se outros laboratórios de ponta — OpenAI, Google DeepMind ou outros — enfrentarão ordens semelhantes de controle de exportação para seus sistemas mais avançados é uma questão não resolvida e urgente para a indústria.
O que está claro é que o desligamento representa um ponto de inflexão. Uma empresa que tentou gerenciar o risco por meio de autorrestrição voluntária foi anulada por um governo que julgou até mesmo uma versão pública limitada como perigosa demais para a difusão internacional. A colisão entre segurança voluntária e controles de exportação obrigatórios agora saiu da teoria para a prática.
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