O romance C’était ça ou mourir — algo como “Era isso ou morrer” — estava na disputa pelo Goncourt, um dos principais prêmios literários da França. Em 25 de setembro de 2026, porém, a Academia Goncourt retirou o livro do que chama de sua primeira seleção. A instituição apontou dois motivos: suspeitas de que o romance do escritor haitiano-canadense Thélyson Orélien tenha sido produzido em grande parte com inteligência artificial e denúncias de plágio relativas a trabalhos anteriores dele. A retirada é um fato; a autoria por IA continua em disputa.
7
17
27
O que levou à retirada?
Em seu comunicado, a academia afirmou que análises de pesquisadores e jornalistas indicariam que o romance é, “segundo toda a probabilidade”, amplamente produto de IA. Também citou casos de plágio que, segundo ela, vieram à tona recentemente. A instituição disse querer preservar a integridade do prêmio e sua missão de reconhecer literatura escrita por pessoas. Trata-se da avaliação apresentada pela academia, não de uma reconstituição independente do processo de escrita do livro.
45
8
A mudança veio poucas semanas depois de o romance entrar na seleção inicial do Goncourt, no começo de setembro. Em 21 de setembro, ele ganhou o Prix du roman Fnac, prêmio francês ligado à rede de livrarias Fnac — no mesmo dia em que a acusação sobre IA apareceu no X.
37
29
De onde veio a acusação de uso de IA?
A conta “Balance ton Claude” afirmou ter submetido trechos do romance ao detector Pangram e obtido resultados de “100% IA”. A CBC News relatou ter chegado ao mesmo resultado ao testar outros trechos com a ferramenta. Mais tarde, o ensaísta e colunista do Le Figaro Samuel Fitoussi disse integrar o grupo por trás da conta e afirmou que não agiu sozinho.
28
29
1
Um resultado de detector não equivale a um histórico verificado de escrita. Testes descritos em reportagem da AFP produziram resultados divergentes entre ferramentas, e a questão da autoria do romance continuou sem resposta conclusiva. Os índices ajudam a entender por que a suspeita ganhou força, mas não demonstram, isoladamente, quem — ou o quê — escreveu o texto.
20
18
O que dizem o autor e as editoras?
Orélien nega ter usado ferramentas de IA para escrever o romance. Em 23 de setembro, a Reuters informou que suas editoras no Canadá e na França o apoiavam. Segundo o autor, ele começou a escrever o livro em 2017 e concluiu uma primeira versão em 2019. Esse relato é relevante para a discussão, mas, sem outras evidências, não esclarece eventuais revisões posteriores.
17
34
Há uma questão separada: o jornal canadense La Presse apontou semelhanças entre textos publicados anteriormente e artigos atribuídos a Orélien entre 2012 e 2014. A agência The Canadian Press informou não ter verificado essas denúncias de forma independente. Elas dizem respeito a trabalhos anteriores, não constituem prova direta de que C’était ça ou mourir tenha sido gerado por IA. Em meio à controvérsia, a editora quebequense Les Éditions du Boréal suspendeu a divulgação do livro.
27
49
O que o caso revela sobre os prêmios literários?
No Canadá, as organizações responsáveis pelos prêmios Writers’ Trust e Giller dizem proibir obras escritas por IA, mas dependem em grande medida das editoras, que trabalham diretamente com os autores, para verificar se os livros inscritos cumprem essa regra.
19
A decisão do Goncourt teve uma consequência concreta para Orélien, mas não é um veredicto técnico definitivo sobre o manuscrito. O desafio para os prêmios é aplicar regras de autoria humana de modo justo quando detectores, declarações de editoras e o relato do próprio autor não resolvem a mesma pergunta.
8
17
20