Depois de mais de 20 meses de operações militares, o setor pecuário de Gaza foi destruído de forma sistemática. Ataques israelenses atingiram fazendas, estábulos, instalações veterinárias e armazéns de ração, dizimando a população local de ovelhas, gado e cabras . Segundo relatos vindos do terreno, quase todo o rebanho local está morto .
A situação é agravada por um bloqueio severo às importações. Nenhuma carne fresca entrou em Gaza nos últimos três meses, e Israel bloqueou completamente a entrada de animais vivos para o sacrifício . Um ex-criador de gado que já foi referência no setor em Gaza, e que hoje administra um pequeno restaurante que depende de carne congelada importada sob fortes restrições, disse a jornalistas de forma direta: "Nenhum animal vivo está sendo autorizado a entrar em Gaza" .
O órgão do governo israelense que coordena as atividades nos territórios ocupados (COGAT, na sigla em inglês) afirmou que facilita a importação de carne, aves, ovos e laticínios, e informou que quase 8 mil toneladas desses produtos foram entregues em um mês recente — com a ressalva explícita de que a lista não inclui gado vivo . Mesmo assim, os alimentos congelados e processados continuam completamente fora do alcance da maioria da população, cujo poder de compra foi esmagado pela guerra e pelo deslocamento forçado.
Na Cisjordânia, os fatores que provocam a privação são tanto econômicos quanto físicos, com o gado sendo roubado diretamente de famílias palestinas. Na véspera do Eid, a pastora palestina Sameeha Rasheed, da região de Masafer Yatta, perdeu todo o rebanho de ovelhas da família em um ataque antes do amanhecer realizado por colonos judeus. "Em vez de celebrar, Rasheed ficou sem nada", observou uma reportagem da Reuters, destacando que ela também foi privada da renda que obteria com a venda dos animais que a família não utilizaria .
A escala do problema é imensa. O Ministério da Agricultura palestino informa que aproximadamente 4 mil cabeças de gado foram roubadas por colonos apenas desde o início de 2026 . Rasheed contou à Reuters que os colonos realizam ataques quase diários contra pastores em sua região, incluindo jatos de spray de pimenta na direção de casas e crianças .
Esses episódios se inserem em uma escalada mais ampla da violência dos colonos. Nos primeiros três meses de 2026, o número de palestinos deslocados na Cisjordânia em decorrência dessa violência e de restrições de acesso chegou a 1.697 — superando o total registrado em todo o ano de 2025 . Os ataques têm como alvo sistemas de água, gado, árvores, casas, veículos, escolas e mesquitas .
A ausência de animais não é a única razão pela qual os rituais de sacrifício se tornaram impossíveis. Mesmo quando alguns poucos animais sobrevivem — reunidos em um curral improvisado no acampamento de tendas de al-Mawasi, na costa sul de Gaza —, quase ninguém tem condições de comprá-los . "Não consigo nem comprar pão. Sem carne, sem legumes", disse Abdel Rahman Madi, morador de Gaza. "Os preços estão astronômicos" .
Os mercados em Gaza estão estranhamente vazios. Produtos repousam em prateleiras empoeiradas, muito além do alcance de uma população devastada pela guerra, pelo deslocamento e pela pobreza que se aprofunda a cada dia . Os doces típicos do Eid, as roupas novas para as crianças e os alimentos festivos praticamente desapareceram do cotidiano. "Não há comida, não há sinais, nada que diga que o Eid está chegando", disse um morador. "Comemos arroz e macarrão quando conseguimos encontrar" .
Com os rituais centrais de sacrifício e caridade suprimidos, os palestinos se agarram a qualquer gesto de normalidade que conseguem realizar.
Orações entre os escombros: A maioria das mesquitas em Gaza está danificada ou destruída. Neste ano, os moradores foram novamente obrigados a fazer as orações do Eid em pequenos espaços ao ar livre, ruas e tendas nos centros de deslocamento .
Decoração em tendas: Milhares de famílias vivem em abrigos de deslocados ou em casas destruídas. Em um ato de resiliência, mulheres como Om Mohammed Ashour penduram fitas coloridas e enfeites de papel dentro de suas tendas para criar um clima festivo para os filhos. "A vida está muito difícil, mas queremos trazer um pouco de alegria para as crianças depois de tudo que passaram", disse ela .
Brincadeiras infantis sobre as ruínas: Sem brinquedos novos ou espaços seguros, as crianças se equilibram em gangorras improvisadas em áreas bombardeadas e correm umas atrás das outras pelos escombros — suas brincadeiras refletindo um ambiente dominado pela guerra e pelo trauma . Para manter um pequeno fragmento da tradição, as famílias tentam vestir seus filhos com a melhor roupa que conseguem encontrar.
Hajj impedido: A data religiosa sofre uma dupla ruptura para os habitantes de Gaza, que também estão proibidos de realizar a peregrinação do Hajj este ano devido ao fechamento contínuo das fronteiras por Israel, quebrando assim um segundo pilar da observância religiosa .
Para muitos, a ausência do sacrifício não é uma questão de poder aquisitivo, mas de existência. "De qualquer forma, não há Eid em Gaza", disse uma moradora. "Gaza está privada de tudo" .
A Festa do Sacrifício, que deveria simbolizar a caridade, a comunidade e a abundância compartilhada, foi reduzida a um dia de sobrevivência. Mas em meio à privação, famílias continuam a orar, crianças encontram formas de brincar, e mães penduram fitas em tendas — atos pequenos e determinados que se recusam a deixar a celebração desaparecer por completo.