Um dos temas mais preocupantes do evento foi a confirmação de que armas autônomas operando sem supervisão humana significativa não são teóricas — elas estão presentes nos campos de batalha atuais. Enquanto o próprio Diálogo Shangri-La martelava essa mensagem nas sessões de defesa, o Ministro das Relações Exteriores de Singapura, Dr. Vivian Balakrishnan, ecoou o mesmo alerta em um debate relacionado no Conselho de Segurança da ONU sobre IA e paz internacional. Ele afirmou diretamente que as armas autônomas letais “não são mais uma potencialidade”, observando que, nas guerras que estão sendo travadas agora, “a verdade é que, devido à urgência de identificar múltiplos alvos e lidar com eles, os dedos humanos, mesmo hoje, muitas vezes não estão nos gatilhos. Nós tivemos que terceirizar isso para os sistemas de IA” .
O perigo, como foi enquadrado ao longo do diálogo, é duplo. No nível tático, sistemas autônomos tomando decisões de vida ou morte sem controle humano podem produzir resultados imprevisíveis em campos de batalha acelerados. No nível estratégico, a remoção do julgamento humano das decisões de ataque cria o risco de uma escalada rápida e irreversível — onde as máquinas transformam escaramuças em conflitos maiores antes que os humanos possam intervir . Essa preocupação esteve diretamente ligada aos temores mais amplos de escalada nuclear que dominaram a cúpula.
O Ministro da Defesa sul-coreano, Ahn Gyu-baek, usou a cúpula para posicionar Seul como uma força importante na defesa habilitada por IA, delineando um ambicioso conceito de “exército inteligente” baseado em sistemas de inteligência artificial, defesas com drones e antidrones e plataformas autônomas . A visão vai muito além de slogans, sendo apoiada por um esforço nacional detalhado para integrar a IA em toda a estrutura das forças armadas:
A Coreia do Sul também assumiu um papel de liderança diplomática, sediando uma cúpula internacional em Seul para elaborar um “plano para o uso responsável da IA no meio militar”. Mais de 90 países, incluindo Estados Unidos e China, participaram. No entanto, espera-se que qualquer estrutura resultante não seja vinculante, e ainda não está claro quantas nações endossarão um conjunto mínimo de diretrizes .
A avaliação mais alarmante que surgiu não foi diretamente sobre a IA — mas a capacidade da IA de acelerar um conflito para o nível nuclear estava no centro do aviso mais severo do IISS. Um estudo dedicado, divulgado durante o diálogo, concluiu que qualquer conflito militar entre EUA e China por Taiwan traria o risco de uma rápida escalada nuclear. A análise concluiu que ambos os lados provavelmente lançariam operações abrangentes visando os centros de comando, controle e comunicações um do outro — criando uma pressão desestabilizadora para escalar para o uso de armas nucleares antes de perder a capacidade de coordenar suas forças .
A avaliação do IISS alertou categoricamente que um confronto convencional por Taiwan poderia “rapidamente se transformar em uma crise nuclear” e que o mundo está “à beira de uma nova corrida armamentista nuclear” com a região da Ásia-Pacífico em seu núcleo . Esse alerta foi ecoado no diálogo pelo Secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, que advertiu que um ataque chinês a Taiwan “pode ser iminente” e reforçou a postura de dissuasão americana
. Pequim, por sua vez, emitiu duras advertências, com os representantes chineses supostamente "indignados" com a forma como a questão foi colocada
. A dimensão nuclear também se conecta ao fio condutor da IA: a integração de sistemas autônomos com capacidades nucleares significa que as estruturas tradicionais de controle de armas estão sendo superadas sem que nenhum método de controle estabelecido esteja sendo criado para substituí-las
.
O evento pintou um quadro mais urgente do que os das cúpulas anteriores. A principal conclusão é que a IA não é mais uma preocupação para uma guerra futura — ela está remodelando ativamente os cronogramas dos conflitos, removendo o julgamento humano de decisões letais e corroendo a barreira de contenção entre a escalada convencional e a nuclear. O plano do “exército inteligente” da Coreia do Sul mostra como potências médias estão correndo para incorporar a IA antes mesmo de existirem estruturas de governança, enquanto a avaliação de risco nuclear de Taiwan ressalta que o principal ponto de ignição da região carrega uma dinâmica de escalada que nenhuma estrutura de controle de armas existente foi projetada para lidar.
Para a comunidade de defesa e para o público, o evento deixou uma mensagem clara: a IA na guerra está superando tanto a governança quanto a doutrina estratégica, e a janela de oportunidade para estabelecer limites já se fechou.