No final de maio de 2026, o pesquisador de segurança anônimo 0xflorent começou a investigar o contrato abandonado. O que ele encontrou foi uma vulnerabilidade que, em qualquer contrato moderno, seria um furo de segurança gritante: uma função administrativa suscetível a um integer overflow .
Nos primórdios do Solidity (a linguagem de programação do Ethereum), as operações aritméticas com inteiros sem sinal (uint256) não revertiam automaticamente se um cálculo excedesse o valor máximo. Em vez disso, o número "dava a volta" e voltava para zero — um comportamento catastrófico se não fosse verificado. A adoção generalizada da biblioteca SafeMath resolveu isso diretamente, tornando a proteção contra overflow uma parte padronizada do desenvolvimento no Ethereum . Mas o contrato da HongCoin foi lançado antes disso se tornar uma prática comum.
A função administrativa vulnerável foi originalmente projetada para permitir que o time "cunhasse" (criasse) tokens de recompensa. 0xflorent percebeu que, ao chamar essa função com um valor de entrada deliberadamente enorme, ele poderia forçar o saldo de tokens de um investidor a estourar o limite de 2^256 - 1, fazendo-o "dar a volta" para um número minúsculo — essencialmente, resetando-o para um valor abaixo do contador global que bloqueava o reembolso .
Como o acesso à função administrativa ainda era protegido pela carteira multi-assinaturas do time da HongCoin, 0xflorent não pôde agir sozinho. Ele contatou o time original, compartilhou sua prova de conceito testada em um ambiente privado e propôs uma missão de resgate coordenada .
A equipe concordou. De 26 a 30 de maio de 2026, eles executaram 41 transações na blockchain . A cada chamada, disparavam deliberadamente o integer overflow para resetar o saldo de tokens de um investidor diferente. Foi uma exploração cirúrgica de uma falha, realizada não para roubar fundos, mas para desbloqueá-los.
O resultado foi a liberação de todos os 1.003,62 ETH. 0xflorent descreveu a operação como o "primeiro exploit white-hat no Ethereum" e, notavelmente, não cobrou nenhuma taxa dos ativos recuperados — embora dois investidores que resgataram primeiro tenham pago voluntariamente uma "recompensa" (bounty) .
Hoje, o contrato original da HongCoin está totalmente funcional. Não é preciso um novo site, um portal de migração ou uma ferramenta de terceiros. Os investidores simplesmente precisam chamar a mesma e velha função de reembolso na blockchain, usando a mesma carteira com a qual contribuíram em 2016 .
Até 1º de junho de 2026, a situação é simples, mas incompleta:
A história do ICO da HongCoin é uma cápsula do tempo da adolescência do Ethereum, demonstrando como a ausência de padrões como o SafeMath podia trancar milhões de dólares em um beco sem saída digital. Ela também prova que, em um sistema sem permissão, até mesmo um bug de quase uma década pode ser reinterpretado como a chave para uma solução — se você tiver a habilidade para enxergá-la e a integridade para usá-la para o bem.