Em 15 de agosto de 1971, o presidente Nixon se dirigiu à nação para anunciar uma Nova Política Econômica. A medida mais consequente foi determinar que o secretário do Tesouro, John Connally, "suspendesse temporariamente" a conversibilidade do dólar em ouro ou outros ativos de reserva . A suspensão, inicialmente pensada para conter uma crescente corrida ao ouro e combater a inflação, tornou-se permanente
. O dólar deixou de ser lastreado por qualquer mercadoria; tornou-se uma moeda fiduciária, lastreada apenas pela "plena fé e crédito" do governo dos EUA
.
A trajetória do ouro a partir de seu preço fixo conta a história com mais clareza. No sistema de Bretton Woods, o ouro estava fixado em US$ 35 por onça-troy desde 1944 . Libertado dessa amarra, o preço do ouro iniciou uma escalada de longo prazo.
Do preço fixo de US$ 35/onça da era Nixon à máxima de janeiro de 2026, o ouro subiu cerca de 160 vezes . Isso representa um ganho de aproximadamente 12.300% em relação ao valor fixo de US$ 35
.
Enquanto o ouro disparava, o dólar perdia valor de forma constante. De acordo com os dados do Índice de Preços ao Consumidor (CPI) do Bureau of Labor Statistics, o dólar americano perdeu aproximadamente 87% do seu poder de compra desde 1971 . O que um dólar comprava em agosto de 1971 hoje exige cerca de US$ 8,15 para adquirir a mesma cesta de bens
. Em um período mais longo, desde a criação do Federal Reserve em 1913, algumas medidas mais amplas mostram uma perda de 97%, com a maior parte desse declínio ocorrendo após 1971
.
A oferta monetária M2 cresceu de aproximadamente US$ 630 bilhões em 1971 para mais de US$ 22 trilhões em 2026 — uma expansão de 35 vezes — ilustrando ainda mais o cenário monetário por trás dessa desvalorização .
Uma característica marcante da década atual tem sido a acumulação sustentada de ouro pelos bancos centrais globais. Os bancos centrais compraram mais de 1.000 toneladas de ouro por ano em 2022, 2023 e 2024 — o ritmo mais alto sustentado desde a era de Bretton Woods . Apenas no primeiro trimestre de 2026, os bancos centrais compraram 244 toneladas líquidas de ouro
. Essa tendência é interpretada por muitos analistas como uma consequência direta e de longo prazo da era fiduciária pós-1971, à medida que os bancos centrais buscam diversificar suas reservas, afastando-se de ativos denominados em dólar
.
Apesar da perda do lastro em ouro, o dólar americano manteve seu status como a principal moeda de reserva do mundo . No entanto, a erosão de seu poder de compra impulsionou a demanda por ativos reais alternativos, como o ouro. A participação do dólar nas reservas cambiais globais caiu de aproximadamente 71% no início dos anos 2000, refletindo uma mudança gradual em direção à diversificação das reservas
.
Cinquenta e cinco anos após Nixon fechar a janela do ouro, a história é de contrastes profundos: o ouro subiu mais de 12.000% em relação ao dólar, enquanto o dólar perdeu quase 90% de seu poder de compra doméstico. As compras de bancos centrais e os preços recordes do ouro em 2026 sugerem que o regime monetário pós-1971 continua a remodelar as estratégias de reservas globais e o comportamento dos investidores.