No fim de maio, o ETH caiu abaixo do nível psicológico de US$ 2.000 pela primeira vez desde março, acumulando sete semanas consecutivas de baixa . A queda total desde o último pico do ciclo chegou a cerca de 60%, em um processo descrito como uma "cascata de desalavancagem de múltiplos bilhões de dólares"
. Ao perder o patamar de US$ 3.000, mais de US$ 5,4 bilhões em posições alavancadas foram liquidados, gerando uma venda forçada que acelerou a desvalorização
.
É verdade que este não foi um evento isolado do Ethereum. O valor total do mercado de criptomoedas caiu cerca de 20% no primeiro trimestre, com o Bitcoin também recuando 22% . Contudo, a queda do ETH foi mais profunda. Isso sugere a existência de atritos internos, problemas que são particulares ao seu ecossistema.
Se você olhasse apenas para o gráfico de preços, imaginaria um Ethereum abandonado. Os dados de uso da rede contam uma história radicalmente diferente. Esse divórcio entre atividade e preço é a dinâmica mais importante para se entender em 2026.
A atividade na rede do Ethereum atingiu máximas históricas. Em fevereiro de 2026, o número de endereços ativos diários ultrapassou 2 milhões, praticamente o dobro do pico do ciclo de alta de 2021 . As chamadas diárias de contratos inteligentes excederam 40 milhões, um claro sinal de que aplicações reais estão impulsionando o uso, e não apenas transferências especulativas
. Ao longo do primeiro trimestre, a rede processou mais de 200 milhões de transações, um aumento de 43% em relação ao trimestre anterior
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Simultaneamente, o Ethereum mantém sua posição como a camada base dominante das finanças descentralizadas (DeFi). As estimativas para 2026 colocam o Valor Total Bloqueado (TVL) do ecossistema entre US$ 55,6 bilhões e US$ 70 bilhões, respondendo por algo entre 63% e 68% de todo o TVL do setor .
Este é o cerne do paradoxo: o uso massivo não está se traduzindo em valor para o token. A rede é intensamente utilizada, mas o mercado duvida que essa atividade beneficie o ativo ETH. E essa não é uma preocupação vaga. As taxas de transação despencaram para mínimas históricas, chegando a cerca de US$ 0,11 por operação. Uma análise apontou uma queda de 50% nas taxas totais em uma única semana, acompanhada por uma redução de endereços ativos de 350 mil para 280 mil . A migração da execução para as redes de Camada 2 (Layer 2), que agora processam entre 95% e 99% de todas as transações, reduziu o motor de receita de taxas que antes sustentava a tese de investimento do ETH
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Essa tensão foi colocada sob os holofotes por uma reversão bombástica do próprio fundador. Em fevereiro de 2026, Vitalik Buterin fez uma declaração curta que abalou a comunidade: "A visão original das Camadas 2 como 'Sharding de Marca' para resolver a escalabilidade do Ethereum não é mais válida" . O roteiro centrado em rollups, que por cinco anos foi a peça central da narrativa do Ethereum, foi declarado encerrado.
Vitalik foi ainda mais direto em sua crítica: "Se você cria uma EVM que processa 10.000 transações por segundo, mas sua conexão com a L1 é por meio de uma ponte multi-assinatura, então você não está escalando o Ethereum" . Mais tarde, ele reconheceu que o ritmo de descentralização das Camadas 2 tem sido "muito mais lento do que o esperado", e que o caminho original não fazia mais sentido, exigindo um "novo caminho"
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Essa admissão pública atingiu o coração da tese do Ethereum. As redes de Camada 2, antes saudadas como a tábua de salvação para a escalabilidade, agora enfrentam sua maior crise de legitimidade. O mercado interpretou isso como um sinal de que o principal mecanismo de escalabilidade estava fundamentalmente quebrado em sua forma atual — e, com ele, a tese de que o ETH capturaria valor de um vasto ecossistema de rollups.
Como se a incerteza sobre o roteiro não bastasse, a Ethereum Foundation atravessa seu período mais turbulento em anos. Pelo menos oito membros seniores ou de alto perfil deixaram a organização em 2026. Entre eles, estão contribuidores ligados à Beacon Chain, ao trabalho de escalabilidade e ao Protocol Cluster .
A comunidade reagiu com foco na falta de transparência. Figuras públicas passaram a exigir respostas mais claras sobre a liderança e a reestruturação interna . Vitalik respondeu às críticas rejeitando apelos para que a Fundação atuasse ativamente para sustentar o preço do ETH. Ele afirmou que a prioridade será a descentralização, a privacidade e a segurança, e que a entidade reduzirá as vendas de ETH e focará em suas competências centrais
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Embora a intenção fosse reafirmar princípios fundamentais, sua mensagem teve um efeito colateral negativo em um mercado que já questionava a coordenação e a convicção por trás do futuro do projeto. O mercado agora precifica a incerteza não só sobre o curto prazo, mas sobre a própria solidez da tese de longo prazo do Ethereum.
O cenário institucional também não oferece alívio. Os ETFs de Ethereum à vista nos EUA têm registrado saídas líquidas persistentes, refletindo uma mudança cautelosa no sentimento. No dia 19 de maio, os fundos negociados em bolsa tiveram uma saída líquida de US$ 62,27 milhões, marcando o sétimo dia consecutivo de resgates . O maior volume partiu do fundo ETHA, da BlackRock, com US$ 59,37 milhões em retiradas
. No início do ano, o patrimônio líquido (AUM) desses ETFs já havia caído cerca de 65%, de um pico de US$ 30,6 bilhões para aproximadamente US$ 10,7 bilhões
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É crucial, no entanto, não simplificar esse movimento. Em meio a essas saídas, há também momentos de influxos renovados, indicando uma estratégia de ajuste ativo por parte das instituições, e não um êxodo definitivo . Uma pesquisa da Kaiko apontou que, sim, houve US$ 4 bilhões em saídas líquidas coincidindo com a queda de 50% no preço, mas também destacou uma "dominância estrutural" que ainda sustenta a demanda institucional
. O efeito líquido, contudo, permanece negativo: os veículos mais regulados e líquidos para exposição ao ETH estão, no momento, vendo mais capital sair do que entrar.
A crise do Ethereum em 2026 não deriva de uma única métrica quebrada. A atividade on-chain está em máximas históricas . A dominância no DeFi permanece imponente, com cerca de dois terços de todo o valor bloqueado no mundo
. As transações dispararam e a atividade dos contratos inteligentes sinaliza um uso real e orgânico.
O problema é que o mercado perdeu a fé na tradução desse uso em valor para o ETH. O colapso do roadmap centrado em rollups minou a narrativa central de escalabilidade. A crise de liderança na Ethereum Foundation levantou dúvidas sobre a gestão do protocolo. Uma liquidação de posições alavancadas em cascata e sem precedentes puniu o excesso de otimismo. E a migração da atividade geradora de taxas para as Camadas 2, combinada com taxas mínimas históricas, enfraqueceu o motor econômico que um dia tornou tão atraente a narrativa do "ETH como um ativo produtivo" .
O Ethereum não está quebrado. Ele é mais usado do que nunca. Mas, em 2026, o mercado decretou que uso, por si só, não basta. Até que uma tese nova e coerente surja para explicar como essa vasta atividade se converterá, de forma sustentável, em valor para o token, o ETH poderá continuar a ser negociado como uma utilidade desacoplada do seu próprio valor.