Em 20 de maio de 2026, a SpaceX protocolou publicamente seu Formulário S-1 na SEC (a CVM americana), buscando levantar até US$ 75 bilhões — valor que mais que dobraria o recorde anterior, de US$ 29,4 bilhões, do IPO da Saudi Aramco em 2019 . O valuation alvo fica entre US$ 1,75 trilhão e US$ 2 trilhões, o que faria da SpaceX a terceira empresa de capital aberto mais valiosa dos EUA, atrás apenas de Apple e Nvidia, e à frente da Microsoft .
Pela primeira vez, a empresa foi forçada a abrir seus livros ao escrutínio público. Os números são impressionantes nos dois lados do balanço. A companhia gerou US$ 18,7 bilhões em receita em 2025, sendo que a Starlink respondeu por US$ 11,4 bilhões — ou 61% do total . Mas a SpaceX também registrou um prejuízo líquido de US$ 4,9 bilhões no ano, seguido por mais US$ 4,28 bilhões de prejuízo apenas no primeiro trimestre de 2026. O prejuízo acumulado da empresa agora chega a US$ 41,3 bilhões .
O rombo mais fundo está na inteligência artificial. Após uma fusão com troca de ações com a xAI de Elon Musk em fevereiro de 2026, a entidade combinada está queimando cerca de US$ 2,5 bilhões por trimestre em despesas relacionadas a IA. Só em investimentos (CAPEX) em IA no 1º trimestre de 2026, foram aportados US$ 7,7 bilhões — superando em muito o US$ 1 bilhão gasto no segmento Espacial e US$ 1,3 bilhão em Conectividade .
Dois dias após protocolar o S-1, a SpaceX lançou o primeiro voo da Starship Versão 3 — um veículo de 124 metros de altura com motores Raptor V3 atualizados — a partir de uma segunda plataforma recém-construída em Starbase, no Texas . O timing foi crucial. Um teste bem-sucedido serviria como um poderoso sinalizador para investidores institucionais de que a tecnologia central de lançamento da empresa está amadurecendo conforme o cronograma.
O voo cumpriu a maioria dos objetivos primários. A Starship V3 atingiu a trajetória suborbital pretendida, lançou 22 satélites Starlink simulados, transmitiu vídeo em tempo real durante o voo e executou uma amerissagem controlada no Oceano Índico . Elon Musk parabenizou sua equipe por "um épico primeiro lançamento e pouso da Starship V3" .
No entanto, o voo não foi impecável. Três motores Raptor do propulsor Super Heavy falharam na decolagem, e o propulsor não conseguiu completar uma queima de retorno (boostback) controlada, caindo de forma descontrolada no Golfo do México. A Starship também perdeu um motor Raptor a vácuo durante a subida, e um teste planejado de reignição de motor no espaço não foi realizado . Os resultados mistos ressaltam que, embora a Starship esteja avançando, ela ainda é um veículo experimental — central para os planos de longo prazo, mas longe de ser comprovada em serviço operacional.
A força gravitacional do IPO da SpaceX impulsionou todo o setor. Nos EUA, o entusiasmo do varejo fez as ações espaciais puras dispararem: a Planet Labs subiu 24% e a Intuitive Machines ganhou 24% em dois pregões após o protocolo confidencial inicial em abril .
O rali rapidamente cruzou o Atlântico. Em 21 de maio, um dia após o S-1 público, a operadora francesa de satélites Eutelsat saltou entre 16% e 20%, enquanto a fabricante alemã OHB ganhou de 12% a 15% . A luxemburguesa SES subiu de 2,3% a 3,7%. Até o fim da semana, Eutelsat e OHB haviam adicionado cerca de um terço ao seu valor de mercado . A gestora britânica de investimentos espaciais Seraphim Space disparou quase quatro vezes no último ano, sendo negociada com um prêmio de 71% sobre seu valor patrimonial por ação .
O rali reflete uma convergência de forças: o IPO histórico, a expansão dos orçamentos globais de defesa e uma projeção da McKinsey de que a economia espacial global atingirá US$ 1,8 trilhão até 2034, ante US$ 613 bilhões em 2024 .
Um valuation de US$ 1,75 tri a US$ 2 tri para uma empresa que nunca registrou lucro anual atrai comparações com os picos mais especulativos da história dos IPOs de tecnologia. O múltiplo implícito aniquila qualquer concorrente do setor aeroespacial e de satélites. Uma análise calculou que apenas cerca de 7% do valuation implícito da empresa é respaldado por patrimônio líquido tangível atual, dado o enorme prejuízo acumulado .
O S-1 revela que Musk detém 42% do capital, mas controla 85,1% dos direitos de voto, o que lhe dá controle unilateral sobre a composição do conselho, direção estratégica e quaisquer transações com partes relacionadas . Dois pacotes de remuneração atrelados a metas para Musk podem valer cerca de US$ 737 bilhões se integralmente adquiridos . Para investidores institucionais, essa concentração de poder de voto é um clássico sinal de alerta de governança.
A Starlink gerou 61% de toda a receita da SpaceX em 2025, tornando a saúde financeira da empresa fortemente dependente de uma única linha de produtos que enfrenta concorrência crescente do Projeto Kuiper da Amazon e de outras constelações emergentes de órbita baixa . Qualquer revés regulatório, disputa de espectro ou falha técnica que afete a Starlink atingiria diretamente o motor de receita principal da companhia.
A Starship é o veículo do qual dependem as ambições interplanetárias da SpaceX e seus planos de lançamento de satélites em alto volume. O voo de teste da V3 demonstrou progresso, mas as falhas de motor e problemas de controle do propulsor destacam que o sistema ainda está em desenvolvimento. Levar a Starship de voos experimentais a operações comerciais confiáveis — particularmente para missões com tripulação humana ou cargas de alto valor — permanece um desafio técnico significativo.
A SpaceX está mirando uma janela de precificação e listagem bastante justa no início de junho. O roadshow é comprimido, e qualquer disrupção macroeconômica, pico de volatilidade ou comentário de última hora da SEC entre agora e 12 de junho pode forçar um adiamento ou pressionar a precificação final.
As próximas duas semanas vão determinar se o mercado está disposto a precificar a SpaceX como uma empresa de US$ 2 trilhões — ou se o peso dos seus prejuízos forçará uma estreia mais conservadora.