Apesar de um mercado turbulento, Cathie Wood manteve-se firme em sua convicção de que uma drástica reavaliação do preço do Bitcoin é inevitável. Em uma série de entrevistas, ela reiterou as metas de preço atualizadas da ARK Invest para os próximos cinco anos. Suas projeções apontam para um caso-base de aproximadamente US$ 730.000 a US$ 750.000 e um cenário otimista que varia de US$ 1,25 milhão a US$ 1,5 milhão até 2030 .
Wood não trata o Bitcoin como uma mera aposta especulativa, mas como uma necessidade estratégica. Ela o rotula como uma "apólice de seguro" contra a desvalorização das moedas, argumentando que a perda sistêmica do poder de compra das moedas fiduciárias (como o dólar e o real) e os estágios iniciais da adoção institucional serão os principais motores desse crescimento de preço . Em sua visão, a política monetária algorítmica do Bitcoin o torna uma reserva de valor superior e à prova de adulterações em comparação com o ouro, que, para ela, pertence a um regime mais antigo e menos transparente .
Curiosamente, essa perspectiva, embora ainda incrivelmente otimista, representa uma versão mais comedida de suas previsões anteriores. Após um crash relâmpago em outubro de 2025 e a rápida expansão das stablecoins como o USDT da Tether, a ARK Invest reduziu sua projeção otimista de US$ 1,5 milhão para US$ 1,2 milhão em novembro de 2025, reconhecendo que as stablecoins estavam ocupando parte do espaço que se imaginava para o Bitcoin em pagamentos e remessas internacionais . É como se, na prática, ela tivesse ajustado a rota ao perceber que um novo competidor "roubou a cena" em uma função específica que era esperada do Bitcoin.
Para Frank Giustra, um financista cuja fortuna está profundamente enraizada na mineração de ouro, os comentários de Wood ultrapassam a linha do otimismo e beiram o descolamento da realidade. Ele lançou uma repreensão pública contundente, chamando suas declarações de "constrangedoras" . Seus contra-argumentos vão ao cerne da proposta de valor do Bitcoin:
Giustra argumenta que o Bitcoin se comporta como um ativo de risco, movendo-se em correlação com as ações de tecnologia, em vez de agir como uma proteção em crises geopolíticas. Ele aponta para as enormes quedas de 2025, quando o Bitcoin despencou de máximas em torno de US$ 120.000 para bem menos de US$ 100.000, como prova de que lhe faltam as características estabilizadoras do ouro . Ele caracteriza a promoção do ativo como movida por um perigoso "dogma" maximalista, criado para atrair investidores menos experientes .
Seu argumento mais contundente explora uma característica frequentemente apontada como vantagem: o livro-razão público. Giustra argumenta que o ouro físico pode ser armazenado anonimamente e escondido de uma forma que torna quase impossível para os governos apreendê-lo por coerção financeira. Em contraste, o livro-razão público e imutável do Bitcoin o torna inerentemente rastreável e passível de confisco estatal .
A crítica de Giustra ganhou validação imediata e concreta. No final de maio de 2026, o Secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, anunciou a apreensão de quase US$ 1 bilhão em criptomoedas ligadas ao Irã . Giustra agarrou-se a este evento como a prova definitiva de que a narrativa do "ouro digital" é falsa. Ele argumentou que, se um ator estatal pode rastrear e confiscar grandes quantias de ativos digitais sem o uso de força física, o ativo falha no teste definitivo de um porto seguro: a verdadeira resistência a apreensões .
Essa troca de farpas está longe de ser um incidente isolado. Frank Giustra trava uma campanha persistente contra o rótulo de "ouro digital" há anos. Em janeiro de 2026, ele publicou um ensaio com o título direto: "O Bitcoin é Realmente Ouro Digital?" em seu site pessoal. Nele, ele dissecou o colapso do preço do Bitcoin durante a crise da Groenlândia em 2025, reiterando que a moeda age como um ativo de risco especulativo, e não um refúgio estável . Ele também tem sustentado que os governos já controlam reservas substanciais de Bitcoin, todas compostas inteiramente por moedas apreendidas, criando um precedente para futuros confiscos em larga escala que seriam logisticamente impossíveis com barras de ouro físicas . É uma visão pragmática e brutal: se o ouro é difícil de confiscar na calada da noite, com criptomoedas, o governo pode fazer isso com alguns cliques.
Para Cathie Wood, o contra-argumento é igualmente fundamental. Ela rejeita o argumento do anonimato puro ao focar na resistência à censura sistêmica do Bitcoin e em sua descentralização como uma rede monetária global. Ela vê o Bitcoin não apenas como ouro digital, mas como um "sistema monetário global baseado em regras", algo que, segundo ela, o mundo espera desde que os EUA abandonaram o padrão-ouro em 1971 . Sua tese sustenta que, em um ambiente fiscal em deterioração, um sistema algorítmico e transparente é uma apólice de seguro de longo prazo melhor do que um ativo físico cuja segurança depende exclusivamente de escondê-lo bem.
O confronto é menos uma simples discordância passageira e mais uma guerra por procuração ideológica. Wood vislumbra um futuro onde a escassez digital redefine o conceito de dinheiro, enquanto Giustra aposta que, quando a próxima crise global chegar, apenas aquilo que você pode fazer desaparecer fisicamente sobreviverá. A pergunta que fica para o investidor brasileiro, acostumado a buscar proteção contra a inflação e a desvalorização do real, é: em qual dessas duas visões de mundo você confia para proteger seu patrimônio?