O site Digiday classificou a situação como uma "pílula amarga" para os publishers: a OpenAI gera uma receita extra com anúncios veiculados ao lado de conteúdo original de veículos jornalísticos, mas nenhum centavo desse dinheiro retorna para os criadores .
Em vez de uma participação contínua na receita de anúncios, a OpenAI estrutura seus relacionamentos com a imprensa em duas frentes de valor, ambas com suas limitações.
Contratos de licenciamento de conteúdo são o carro-chefe. A empresa firmou acordos plurianuais, com pagamentos fixos, com dezenas de grandes publishers para ter acesso a arquivos e dados de treinamento. O contrato da Dotdash Meredith, por exemplo, gira em torno de US$ 16 milhões por ano. A lista de parceiros inclui Vox Media, The Atlantic e Axel Springer . São pagamentos únicos ou anuais — e não uma participação nos lucros futuros.
A distribuição preferencial é o segundo pilar. Um documento vazado sobre o "Programa de Editores Preferenciais" revelou que parceiros selecionados ganham posicionamento de destaque e uma "expressão de marca mais rica" nas respostas do ChatGPT, trocando visibilidade pelo acesso ao conteúdo .
Um ponto crucial da fala de Shetty ecoa como um alerta: ele afirmou publicamente que não vê o tráfego de cliques como o "valor central" para um site aparecer nos resultados de busca do ChatGPT . Essa declaração representa uma ruptura drástica com o modelo de negócios da era Google, que direcionava bilhões de visitas aos sites como sua principal moeda de troca.
O mercado de compartilhamento de receitas se fragmentou em três modelos distintos, com a OpenAI em um extremo e seus concorrentes menores no outro.
A Prorata AI representa a aposta mais agressiva em divisão de receita. A startup opera o Gist.ai, um buscador com IA que nasceu com a promessa de dividir metade de todo o faturamento com os publishers parceiros de forma recorrente . O sistema usa algoritmos proprietários de atribuição para calcular a contribuição de cada conteúdo e fazer a distribuição proporcional dos pagamentos
.
A empresa já conquistou parceiros de peso como Boston Globe, Vox Media, Der Spiegel, The Atlantic, Financial Times e Texas Tribune, além do respaldo da News/Media Alliance . A ProRata se apresenta como uma "plataforma neutra" construída para garantir, desde o início, uma compensação justa
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A Perplexity lançou seu programa de divisão de receitas, o Comet Plus, em 2025, criando um fundo de US$ 42,5 milhões para remunerar editores quando seu conteúdo é citado nas respostas . O modelo é diferente: a receita das assinaturas (Pro, Max e Comet Plus) é reunida em um único montante, do qual 80% é distribuído com base em três categorias — visitas diretas, tráfego de robôs de busca e uso por agentes de IA
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A Perplexity chegou a compartilhar receita de anúncios quando os lançou no final de 2024, mas depois removeu a publicidade de sua plataforma . Apesar de ter assinado com muitos editores, a empresa enfrenta problemas de confiança. Alguns publishers relataram ao Digiday que "não conseguiram entrar" no programa, e os pagamentos foram descritos como "uma fração" do que a OpenAI ofereceu em contratos de licenciamento
.
Os três modelos expõem filosofias de remuneração radicalmente opostas:
O debate sobre a divisão de receitas tem como pano de fundo uma escalada nas batalhas legais e retóricas. Em 1º de junho de 2026, um dia antes de Shetty confirmar a política da OpenAI, o publisher e chairman do New York Times, A.G. Sulzberger, fez o discurso de abertura no mesmo congresso da WAN-IFRA em Marselha .
Sulzberger acusou as empresas de IA de cometerem um "roubo deslavado de propriedade intelectual" em "escala sem precedentes" . Ele descreveu as gigantes da tecnologia como "mineradoras" que "saqueiam" sites de notícias sem permissão ou compensação, e alertou que o empacotamento de conteúdo jornalístico por essas IAs equivale a negociar "mercadoria roubada"
. Segundo Sulzberger, o New York Times foi a principal fonte de dados proprietários em um dos conjuntos de dados de treinamento de IA mais usados do mundo
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A retórica é acompanhada por custos judiciais reais. O New York Times já gastou mais de US$ 20 milhões em processos contra OpenAI, Microsoft e Perplexity desde de dezembro de 2023 . O jornal processou a Perplexity em dezembro de 2025 por copiar material jornalístico "sem permissão ou compensação"
. Outros veículos, como a CNN e a Alden Global Capital, também entraram com ações
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Sulzberger ainda revelou que o The New York Times gastou mais de US$ 2 bilhões apenas em 2025 para produzir quase meio milhão de conteúdos jornalísticos — um número que grita a dimensão do investimento que as empresas de IA estariam se apropriando .
O cenário atual coloca os publishers de notícias diante de escolhas desconfortáveis. Aceitar um contrato de licenciamento fixo como os da OpenAI traz dinheiro garantido, mas fecha a porta para participar do crescimento futuro da receita — especialmente quando a empresa mira faturar US$ 25 bilhões por ano . Resistir e apostar em plataformas de divisão de receita como a Prorata pode, em tese, alinhar melhor os incentivos, mas exige esperar que uma empresa menor ganhe escala. Processar, como fez o New York Times, abre a chance de criar jurisprudência, mas consome recursos imensos com resultados incertos.
A tensão central, como a fala de Shetty escancara, é que as empresas de IA e os veículos de imprensa estão enxergando a troca de valores de formas antagônicas. Os publishers querem uma fatia contínua do valor que seu conteúdo ajuda a criar. A OpenAI, por sua vez, considera a transação encerrada no momento em que o cheque do licenciamento é compensado.
Enquanto isso, governos começam a se mover. A Lei de IA da União Europeia já impõe requisitos de transparência sobre o uso de dados de treinamento, e o Reino Unido tem sido ativo por meio de seu Instituto de Segurança de IA e consultas sobre direitos autorais. Essas ações regulatórias sinalizam que os governos estão se preparando para dar mais poder de barganha aos editores — mas no ritmo da legislação, e não no da tecnologia.
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