O desenho exato, porém, permanece desconhecido. A participação da AMD poderia envolver propriedade intelectual de CPU, integração de chiplets, encapsulamento avançado, interconexão ou outra etapa do programa. Nenhuma das fontes disponíveis esclarece se a empresa projetaria uma TPU completa, forneceria blocos específicos de IP ou participaria apenas do desenvolvimento do pacote.
A AMD tem um precedente comercial diretamente relevante: a Instinct MI300A. Segundo a própria empresa, o dispositivo combina 24 núcleos de CPU x86 Zen 4, 228 unidades de computação gráfica CDNA 3 e 128 GB de memória HBM3 unificada em um pacote coerente.
Essa arquitetura demonstra experiência em reunir computação de uso geral, recursos de aceleração e memória de alta largura de banda em um único sistema. Também torna a AMD uma candidata tecnicamente crível para projetos nos quais CPU e acelerador precisam trocar dados com menos movimentação entre componentes separados.
Mas a MI300A não prova que a TPU mencionada nos rumores usaria os mesmos núcleos de CPU, sistema de memória, tecnologia de encapsulamento ou pilha de software. Trata-se de uma referência às capacidades da AMD — não de uma confirmação do projeto atribuído ao Google.
As conversas tradicionais sobre aceleradores de IA costumam se concentrar em capacidade de processamento matricial e largura de banda da memória. Sistemas agênticos acrescentam uma série de tarefas ao redor do modelo: coordenar ações, gerenciar ferramentas, avaliar resultados intermediários e reagir a ambientes que mudam.
Cargas de aprendizado por reforço seguem uma lógica parecida, combinando computação intensa no acelerador com processamento de uso geral. Isso pode criar um gargalo quando um servidor tem poucos recursos de CPU em relação à quantidade de aceleradores instalados.
Uma possível resposta é aumentar a proporção de CPUs por acelerador. Outra é colocar parte da capacidade de CPU dentro do próprio pacote do acelerador. É nesse contexto que os relatos posicionam a possível TPU v10, embora as proporções mencionadas e a arquitetura final não devam ser tratadas como especificações confirmadas pelo Google.
O rumor sobre a AMD se encaixa em uma expansão mais ampla — e relatada — do ecossistema de chips personalizados do Google. A Broadcom é descrita como a principal parceira de implementação das TPUs, contribuindo para o projeto físico, interfaces de alta velocidade, fornecimento de energia e coordenação de encapsulamento ou fabricação.
Separadamente, a MediaTek teria começado a colaborar com o Google na TPU de sétima geração, enquanto a relação com a Broadcom continuaria. Nesses relatos, o Google lideraria a arquitetura principal, e a MediaTek cuidaria de funções de entrada e saída e de componentes periféricos, com produção prevista na TSMC em 2026.
A conclusão importante é que a entrada de novos fornecedores não significa automaticamente a substituição dos antigos. O Google pode dividir o trabalho por geração, tipo de chip, treinamento ou inferência, chiplet, função de entrada e saída, requisitos de encapsulamento ou capacidade de produção disponível.
Assim, uma eventual participação da AMD seria mais compatível com uma estratégia de múltiplos parceiros do que com a prova de que Broadcom ou MediaTek perderam seus papéis.
A ampliação da relação entre Google e Marvell oferece um dado comercial divulgado publicamente, ao contrário do relato sobre a AMD. O acordo abrange programas de semicondutores personalizados ligados ao ecossistema de TPUs, incluindo aceleradores de inferência, controladores de armazenamento, controladores de interface de rede, controladores de interface de memória e computação próxima à memória.
A Marvell concedeu ao Google um warrant — direito de compra de ações — para adquirir até 58.970.907 papéis a US$ 206,58 por ação. Se exercido integralmente, o direito teria valor aproximado de US$ 12,2 bilhões.
Esse número precisa ser interpretado com cuidado. O warrant está ligado a metas futuras de compras, com a liberação das ações em parcelas associadas à receita da Marvell gerada pelo Google. Os relatos descrevem uma estrutura de compras que poderia alcançar até US$ 120 bilhões até o ano fiscal de 2033, mas esse valor é um teto condicionado às metas — não uma encomenda incondicional nem uma receita imediata.
O acordo com a Marvell reforça a ideia de que o Google está construindo uma cadeia de fornecimento de chips personalizados mais profunda e diversificada. Ele não confirma a participação da AMD na TPU v10.
Se o projeto existir e chegar a uma produção relevante, ele poderá abrir para a AMD uma nova porta no mercado de silício personalizado para grandes provedores de nuvem. Isso ampliaria sua oportunidade em IA para além da venda de aceleradores Instinct e processadores EPYC, transformando seu IP de CPU e sua experiência em encapsulamento em componentes de sistemas desenvolvidos sob medida para clientes.
O impacto financeiro, no entanto, é totalmente especulativo. Os relatos disponíveis não informam o escopo do trabalho da AMD, os termos econômicos, a propriedade intelectual, a fabricante contratada, a capacidade de encapsulamento, os volumes esperados ou o cronograma. Portanto, não há base sólida para contabilizar o rumor como receita contratada da AMD ou atribuir a ele um impacto específico sobre a avaliação da empresa.
Para o Google, trabalhar com mais fornecedores pode ampliar a capacidade de desenvolvimento, oferecer flexibilidade industrial e aumentar o poder de negociação. Também permite combinar componentes especializados com os parceiros mais adequados para cada função.
Isso pode ajudar a criar aceleradores diferentes para treinamento, inferência e cargas de trabalho agênticas. Para Broadcom e MediaTek, a possibilidade de um novo parceiro pode trazer pressão competitiva adicional, ainda que marginal.
Seria prematuro, porém, concluir que a Broadcom perderá negócios, que a participação da MediaTek diminuirá ou que a posição das TPUs no mercado mudará. O padrão relatado da cadeia de fornecimento do Google já sugere que vários parceiros podem atuar simultaneamente em partes diferentes do roteiro tecnológico.
Mesmo o roteiro de TPUs divulgado em relatos coloca um programa de TPU v8 em processo avançado de produção apenas no fim de 2027. Uma TPU v10 viria depois, supondo que a numeração e as informações do roteiro estejam corretas.
Além disso, uma TPU heterogênea exigiria muito mais do que um anúncio de arquitetura. Google e seus parceiros precisariam definir a interface entre CPU e acelerador, validar coerência de memória e encapsulamento, concluir o projeto físico, habilitar compiladores e software, garantir capacidade de fabricação e encapsulamento avançado, testar o silício e instalar os sistemas em data centers.
Essa sequência torna improvável um lançamento de curto prazo. A inferência mais prudente é a de um horizonte de vários anos após a v8 — não a de uma data de produção confirmada.
O sinal mais concreto é a expansão da rede de fornecedores de chips personalizados do Google, incluindo o acordo divulgado com a Marvell. Já a história sobre Google e AMD na TPU v10 é mais frágil: ela se baseia em comentários de mercado atribuídos à SemiAnalysis e não foi confirmada por nenhuma das duas empresas.
O rumor é tecnicamente interessante porque conecta a experiência da AMD em CPUs, chiplets e encapsulamento a cargas de trabalho que podem exigir mais processamento de uso geral ao redor do acelerador. Até que Google ou AMD divulguem um programa, porém, arquitetura, valor comercial, volume de produção, impacto competitivo e cronograma devem ser tratados como questões em aberto.