Uma alta de 70% no querosene de aviação, disparada pela guerra no Irã, está apagando o boom de viagens pós pandemia. As aéreas do Golfo se recuperam em ritmos distintos: a Emirates restaurou 96% de sua malha até maio, mas cortou 500 mil assentos para junho; já a Qatar Airways luta para sair de um buraco de 20% da ca...

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O boom de reservas pós-pandemia das companhias aéreas europeias acabou. Não foi um declínio gradual; ele foi estilhaçado por um choque triplo gerado pela guerra no Irã. O conflito provocou uma disparada de 70% no preço do querosene de aviação (jet fuel) , o medo dos consumidores com uma possível escassez de combustível está adiando as reservas de verão
e a piora no sentimento econômico está encolhendo os orçamentos de viagem
. O resultado é uma desaceleração brusca: o crescimento de RPK (passageiros pagantes por quilômetro voado) na Europa desacelerou para apenas 0,8% em abril de 2026, um número que a IATA (Associação Internacional de Transporte Aéreo) vincula diretamente ao conflito
. As reservas de verão entre EUA e Europa caíram 14,2% na comparação anual, com a queda sendo puxada principalmente por viajantes que partem da Europa
.
As companhias aéreas agora estão presas em um “jogo de confiança” com consumidores que estão adiando as compras após repetidos alertas sobre um possível racionamento do combustível, forçando as empresas a reduzir preços para estimular a demanda . Isso acontece em um cenário de aumento do custo de vida e orçamentos domésticos mais apertados tanto nos EUA quanto na Zona do Euro, o que, segundo a Allianz Research, pode levar as famílias a reduzir os gastos totais com lazer em vez de simplesmente trocar de destino
.
A guerra no Irã não atingiu todas as aéreas do Golfo da mesma forma, e seus caminhos de recuperação expõem uma clara divergência em resiliência.
A Emirates realizou a recuperação mais rápida. Até 4 de maio de 2026, a companhia sediada em Dubai havia restaurado 96% de sua malha global, atendendo 137 destinos em 72 países . Foi um feito notável, considerando que no início de março a empresa operava com apenas 60% da capacidade pré-guerra
. No entanto, a recuperação se mostrou frágil. Em uma reviravolta significativa, a Emirates removeu quase 500.000 assentos de sua malha de junho de 2026, cortando a capacidade em cerca de 16% na comparação anual e reduzindo os voos diários de partida de 237 para 200, já que o fechamento de espaços aéreos ligado ao conflito continua afetando as rotas
.
A Qatar Airways enfrentou uma crise muito mais profunda. Em seu ponto mais baixo, em 28 de março de 2026, a companhia operava com apenas 20% de sua capacidade pré-guerra saindo de Doha, com dados de rastreamento de voos mostrando apenas 40 partidas diárias — um quinto das operações normais . Desde então, a aérea vem aumentando o ritmo gradualmente, operando 130 voos diários de partida em 17 de abril, um aumento de 65% em relação ao início de abril, mas ainda apenas cerca de 60% dos níveis pré-guerra
. O estrago fica evidente em seus números financeiros: a Qatar Airways reportou uma queda de 7,1% no lucro líquido anual enquanto trabalha para reconstruir sua malha global no que seu CEO descreveu como a mais severa crise operacional da indústria desde a pandemia de COVID-19
.
As trajetórias contrastantes significam que a Emirates se recuperou mais rápido, mas agora está cortando capacidade, enquanto a Qatar Airways está subindo de um buraco muito mais fundo, com fortes ventos contrários estruturais ainda presentes .
Por toda a indústria, altos executivos estão lançando alertas severos. O ponto em comum é que o custo do combustível foi estruturalmente redefinido para cima, e ninguém espera uma rápida volta ao normal.
O grupo controlador da British Airways e da Iberia agora espera que sua conta de combustível em 2026 atinja €9 bilhões — um aumento de €2 bilhões em relação à sua estimativa de fevereiro . O CEO Luis Gallego afirmou que os preços mais altos do combustível “inevitavelmente levarão a um lucro menor este ano do que originalmente prevíamos”
. O IAG fez hedge (proteção financeira) de aproximadamente 70% de suas necessidades de combustível, mas ainda espera recuperar apenas cerca de 60% do aumento de custos por meio de ações de receita, com um repasse mais forte em rotas de longo curso e mercados premium
. O grupo está freando seus planos de crescimento de oferta, cortando o aumento de capacidade do segundo trimestre para apenas 1% e a meta do terceiro trimestre para 2%
.
O cenário global é sombrio. A IATA projeta que os lucros da indústria aérea cairão pela metade, para US$ 23 bilhões em 2026, abaixo dos US$ 45 bilhões em 2025 . O diretor-geral Willie Walsh descreveu a situação como uma “tempestade perfeita”, observando que todos os lucros estão “sofrendo” com a rápida alta dos combustíveis
.
O grupo franco-holandês reduziu sua perspectiva de crescimento de capacidade para 2026 de 3–5% para 2–4% . Alertou sobre um choque de €940 milhões (US$ 1,1 bilhão) no combustível apenas no segundo trimestre, com o preço do querosene no noroeste da Europa atingindo um recorde de US$ 1.840 por tonelada métrica em 3 de abril de 2026
. O custo adicional total de combustível para o ano é estimado em €2,4 bilhões (US$ 2,8 bilhões), e o CEO Benjamin Smith advertiu que o grupo não consegue compensar totalmente esses custos por meio de aumentos de tarifas
.
A principal companhia aérea de Hong Kong enfrentou uma duplicação do preço do combustível em março, comparado à média de janeiro e fevereiro, devido à guerra no Irã . Respondeu de forma agressiva, primeiro dobrando as sobretaxas de combustível na maioria das rotas em março e depois as aumentando em mais 34% em abril — acrescentando HK$ 600 extras ou mais para viagens de longa distância para a Europa e América do Norte
. O CEO Ronald Lam afirmou que o plano de crescimento de 10% na capacidade de passageiros para 2026 pode mudar se os preços dos combustíveis continuarem elevados, acrescentando que cortes de capacidade são “o último recurso”
. O presidente Patrick Healy também sinalizou sobretaxas mais altas e contínuas interrupções na cadeia de suprimentos como ventos contrários persistentes
.
O mercado agora é moldado por uma nova realidade de custos. As companhias europeias e asiáticas estão aumentando as sobretaxas e reduzindo o crescimento da capacidade, enquanto as do Golfo navegam em uma recuperação de duas velocidades. A Emirates provou que pode se reconstruir rapidamente, mas já puxou o freio da capacidade em junho, enquanto a Qatar Airways escala firmemente de um buraco operacional muito mais fundo. O choque do combustível redefiniu a base de custos da indústria, e os alertas de todos os principais executivos apontam na mesma direção: as passagens vão subir, os lucros vão cair, e o impacto total desta crise está apenas começando a se manifestar.
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Uma alta de 70% no querosene de aviação, disparada pela guerra no Irã, está apagando o boom de viagens pós pandemia.
Uma alta de 70% no querosene de aviação, disparada pela guerra no Irã, está apagando o boom de viagens pós pandemia. As aéreas do Golfo se recuperam em ritmos distintos: a Emirates restaurou 96% de sua malha até maio, mas cortou 500 mil assentos para junho; já a Qatar Airways luta para sair de um buraco de 20% da capacidade e report...
Executivos de IAG, Air France KLM e Cathay Pacific estão elevando sobretaxas e reduzindo projeções de crescimento, alertando que o choque do combustível veio para ficar e inevitavelmente resultará em passagens mais ca...