Antes dessa crise, analistas esperavam um período de excesso de oferta com a entrada de novos projetos. A interrupção no Catar eliminou rapidamente essa previsão.
Segundo análise da Enverus, a interrupção altera profundamente o equilíbrio global.
Em vez de um mercado com oferta abundante, o LNG pode enfrentar um déficit estrutural de cerca de 8 Bcf/d em 2026, com escassez potencialmente persistindo por vários anos enquanto a infraestrutura danificada é reparada e projetos de expansão são atrasados.
Isso ocorre porque o mercado global de LNG tem pouca capacidade ociosa. Mesmo interrupções relativamente pequenas podem provocar impactos grandes nos preços e no abastecimento.
Quando um exportador gigante como o Catar sai do mercado, substituir rapidamente esses volumes é extremamente difícil.
Ras Laffan é o coração da indústria de LNG do Catar.
O complexo reúne várias unidades de liquefação, terminais de exportação e instalações de processamento que sustentam grande parte das exportações de gás do país.
Os ataques danificaram múltiplos “trens” de liquefação — as unidades industriais que transformam gás em LNG — além de instalações associadas, incluindo partes do complexo Pearl gas‑to‑liquids.
Como grande parte da produção está concentrada nesse único hub industrial, os ataques expuseram uma vulnerabilidade estrutural na cadeia global de suprimento de gás.
A crise não afetou apenas a produção. Ela também atingiu o transporte.
O Estreito de Ormuz, passagem marítima entre o Golfo Pérsico e o oceano aberto, é um dos principais gargalos energéticos do planeta.
Durante períodos de escalada militar, o estreito tornou‑se praticamente intransitável para navios transportadores de LNG, deixando grandes volumes de gás presos na região. Estimativas indicam que cerca de 20% do fornecimento global de LNG foi afetado por interrupções associadas à rota marítima.
A combinação de produção interrompida + transporte bloqueado ampliou o choque de oferta e aumentou a volatilidade do mercado.
A reação do mercado foi imediata.
Os preços do gás na Europa dispararam após a suspensão da produção no Catar. O contrato de referência europeu, negociado no hub holandês TTF (Title Transfer Facility), subiu mais de 85% em poucos dias, chegando perto de €59 por megawatt‑hora no pico do movimento.
O motivo é simples: o LNG é comercializado globalmente.
Quando a oferta diminui, compradores de diferentes regiões passam a disputar as mesmas cargas disponíveis.
Países asiáticos como Japão, Coreia do Sul e China, altamente dependentes de LNG para geração de energia, recorrem frequentemente ao mercado spot quando há interrupções em contratos. Isso intensifica a competição com importadores europeus.
A Europa, por sua vez, tornou‑se muito mais dependente de LNG desde que reduziu drasticamente as importações de gás russo por gasodutos após 2022.
Preços mais altos de gás costumam se espalhar rapidamente pela economia.
O gás influencia:
Quando os preços sobem, a pressão inflacionária tende a aumentar.
Se os preços do LNG permanecerem elevados por um período prolongado, economistas alertam que a Europa pode enfrentar:
Esse cenário tende a desacelerar o crescimento econômico.
Embora a crise tenha criado riscos, ela também abre espaço para outros exportadores de LNG.
Os Estados Unidos surgiram como principal fornecedor alternativo, com exportações recordes ajudando a compensar parte do gás perdido do Catar.
Mesmo assim, a capacidade americana também enfrenta limites, já que manutenção programada e a temporada de furacões no Golfo do México podem reduzir a produção ao longo do ano.
No médio prazo, a crise pode aumentar a importância estratégica de:
Muitos países importadores já estudam diversificar fornecedores para reduzir dependência de poucos grandes exportadores.
Os acontecimentos de 2026 revelam o quão concentrado ainda é o sistema global de LNG.
Uma interrupção em um único hub — combinada com tensões em um gargalo marítimo crítico — foi suficiente para transformar um mercado que parecia caminhar para excesso de oferta em um cenário potencial de escassez.
Com a recuperação da infraestrutura de Ras Laffan ainda incerta e o risco geopolítico elevado, o mercado global de gás pode enfrentar anos de oferta mais apertada, preços mais voláteis e competição crescente entre regiões importadoras.