Em aproximadamente 24 horas, jornalistas e pesquisadores demonstraram como o recurso poderia fabricar desinformação geográfica convincente. No dia 31 de julho, o Google anunciou a reversão da novidade, dizendo que trabalharia na implementação de “proteções mais fortes” .
Na versão web do Google Earth, o usuário podia aproximar o zoom de qualquer ponto do planeta, selecionar “Criar imagem” e escrever um prompt. O sistema então produzia uma cena fotorealista ancorada nos dados geográficos reais da plataforma .
Essa combinação era o principal diferencial — e também o maior risco. A imagem gerada não parecia um desenho genérico criado em um aplicativo de IA: ela aparecia sobre um terreno, uma escala e coordenadas que existiam de verdade.
Pesquisadores e veículos de imprensa testaram rapidamente os limites da ferramenta. Entre os exemplos produzidos estavam:
Os testes não provaram que todas essas imagens já tivessem sido usadas em campanhas coordenadas de desinformação. Eles mostraram, porém, que qualquer pessoa poderia produzir rapidamente falsificações com aparência de registros geográficos autênticos.
Investigadores de inteligência de fontes abertas — conhecidos pela sigla OSINT — e analistas geoespaciais usam imagens de satélite para verificar guerras, desastres e denúncias de violações de direitos humanos. Para eles, o problema central era a fusão entre conteúdo inventado e uma base visual considerada confiável.
Henk van Ess disse à BBC Verify que a ferramenta “soldava imagens inventadas a coordenadas genuínas, desenhadas sobre imagens genuínas”. Segundo ele, “a falsificação não precisa parecer convincente por si só. Ela herda a credibilidade do mapa em que nasceu” .
Brady Africk, analista do American Enterprise Institute, observou que as falsificações eram “ancoradas em imagens reais de satélite”, eliminando alguns sinais típicos de imagens geradas por IA, como inconsistências de terreno e escala . Ele acrescentou: “Poucas pessoas verificam se uma imagem foi gerada por IA enquanto passam por ela ou a compartilham” .
O repórter investigativo Ben Heubl afirmou que a ferramenta podia criar imagens de ataques de drones muito parecidas com cenas já vistas na Ucrânia, na Rússia, no Oriente Médio e em outras zonas de conflito .
Henry Ajder, pesquisador de detecção de IA, alertou que imagens falsas em áreas de conflito que mudam rapidamente poderiam ser especialmente “desestabilizadoras”. Para ele, espaços considerados livres de IA são importantes para jornalistas e pessoas que trabalham na linha de frente de crises em evolução .
O Google dizia contar principalmente com duas barreiras. A primeira era a SynthID, uma marca d’água digital incluída nas imagens geradas. A empresa também afirmava que usuários poderiam consultar o aplicativo Gemini ou usar o Google Lens para verificar se determinada imagem havia sido criada por IA .
A segunda barreira eram as diretrizes incorporadas ao modelo para impedir a criação de imagens sobre “temas prejudiciais” .
Na prática, os testes indicaram que essas medidas não eram suficientes:
O episódio revelou uma preocupação mais ampla: durante décadas, imagens de satélite foram tratadas como uma das formas mais confiáveis de evidência em reportagens, investigações de crimes de guerra e operações humanitárias.
Quando uma cena falsa é colocada sobre um mapa real, a distinção entre “imagem de satélite” e “imagem gerada por IA com aparência de satélite” pode desaparecer para quem recebe apenas uma captura de tela nas redes sociais.
Bill Greer, analista geoespacial e cofundador da Common Space, disse à BBC Verify que o caso poderia prejudicar especialmente a confiança do público porque as imagens de satélite são vistas historicamente como uma fonte de dados muito confiável . Ele observou que imagens de satélite falsificadas já foram usadas para espalhar desinformação e que, à medida que governos restringem o acesso a dados, o público pode ver mais imagens falsas e menos imagens reais — uma combinação capaz de corroer ainda mais a confiança .
Ajder resumiu o problema como mais um espaço em que fontes de informação confiáveis são enfraquecidas pela dúvida constante sobre a possível participação da IA .
Em 31 de julho de 2026, o Google publicou no X uma declaração anunciando a reversão do recurso. Em tradução livre, a empresa afirmou:
“Vimos profissionais de geoespacial usando esse recurso para diversos fins úteis, mas também vimos pessoas compartilhando capturas de tela de imagens geradas que parecem violar nossas políticas. Sabemos que as pessoas confiam de maneira especial no Google Earth para obter uma visão confiável do mundo. Estamos revertendo este recurso no Google Earth enquanto trabalhamos na implementação de proteções mais fortes.”
A empresa não anunciou quando a ferramenta poderá voltar nem detalhou quais proteções seriam adotadas. Por enquanto, o caso serve como um alerta sobre a velocidade com que um recurso de IA pode comprometer a confiança em uma plataforma usada por jornalistas, investigadores e pelo público como referência para entender o mundo real.