A campanha da Adidas para o serviço Single Shoe transformou uma iniciativa de acessibilidade em um foco de controvérsia política. Em Israel, a marca usou Shalev Biton — ex-soldado israelense que perdeu a perna esquerda após ser ferido em 2021 — ao lado de outros 10 atletas com deficiência. A publicidade promovia um serviço que permite a clientes que precisam de apenas um calçado comprar uma unidade por metade do preço de um par.
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A escolha de Biton motivou críticas nas redes sociais e pedidos de boicote por ativistas pró-Palestina. O ator espanhol Javier Bardem esteve entre as figuras públicas que aderiram ao apelo. Depois da reação, a Adidas pediu desculpas e classificou o material como uma ativação local, não como campanha mundial.
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O que é o Single Shoe
O Single Shoe é um serviço voltado a pessoas amputadas ou com diferenças nos membros que não necessitam de um par convencional de tênis. Segundo a Adidas, o programa foi lançado em 23 países europeus em janeiro de 2026. Nas lojas e outlets próprios da empresa, cada unidade custa 50% do valor de um par.
A companhia diz que desenvolveu a iniciativa em consulta com organizações ligadas à deficiência, entre elas a ParalympicsGB, entidade paralímpica britânica.
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Na ação israelense, Biton foi um dos 11 atletas com deficiência apresentados em cartazes nas lojas da Adidas. Reportagens também descreveram um vídeo promocional no qual ele experimentava um tênis e corria ao ar livre.
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Por que a publicidade gerou tanta reação
A principal crítica não era à venda de um tênis avulso para amputados. O ponto contestado foi a decisão de colocar um ex-militar israelense como rosto de destaque de uma campanha local, em meio à enorme demanda por reabilitação em Gaza.
Em atualização divulgada em maio de 2026, a Organização Mundial da Saúde (OMS) estimou que cerca de 43 mil pessoas em Gaza sofreram lesões que mudam a vida desde outubro de 2023. O total inclui mais de 22 mil lesões graves nos membros e mais de 5 mil amputações. Até um quarto das pessoas com lesões desse tipo seriam crianças. São estimativas baseadas em várias fontes de dados de saúde e reabilitação, e não um registro completo em tempo real.
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Nesse contexto, críticos consideraram a peça insensível por dar uma plataforma comercial a um veterano militar israelense enquanto muitos palestinos enfrentam traumas graves nos membros e acesso limitado à reabilitação. Uma coordenadora de campanha de boicote ouvida pela Al Jazeera chamou o anúncio de “uma afronta aos palestinos”.
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Bardem ampliou a repercussão ao pedir a seus seguidores que boicotassem a Adidas em solidariedade aos palestinos.
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O que a Adidas disse em resposta
A Adidas afirmou reconhecer que uma imagem usada em uma “ativação local recente” havia provocado “preocupações e reações fortes”. A empresa disse que não teve a intenção de ofender e pediu desculpas às pessoas afetadas.
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A marca também enfatizou dois pontos:
- Os cartazes foram exibidos em Israel e não integravam uma campanha global.
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- O Single Shoe é um serviço de inclusão para pessoas com diferenças nos membros; não foi criado especificamente para soldados nem para Israel.
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Segundo a empresa, o serviço segue em expansão pela Europa, Ásia e Oriente Médio, incluindo Palestina, Líbano, Egito, Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Kuwait e Catar.
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O histórico da marca no debate Israel-Palestina
A controvérsia ocorreu em um momento em que decisões de marketing e patrocínio da Adidas já vinham sendo examinadas por públicos pró-Palestina e pró-Israel.
Em 2024, a empresa retirou a modelo palestino-americana Bella Hadid de uma campanha de um tênis associado às Olimpíadas de Munique de 1972. A decisão também recebeu críticas e gerou pedidos para que a Adidas se desculpasse.
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Antes disso, clubes esportivos palestinos e campanhas de boicote questionaram o patrocínio da Adidas à Federação Israelense de Futebol, devido à participação de clubes sediados em assentamentos. O patrocínio acabou em 2018; à época, a empresa disse que a decisão era comercial, e não política.
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Esses episódios anteriores não demonstram que o Single Shoe tenha sido criado para excluir palestinos. Eles ajudam, porém, a explicar por que uma campanha de acessibilidade aparentemente direta passou a ser lida dentro de um contexto político muito mais amplo e disputado.
A distinção central no caso
A Adidas apresenta o Single Shoe como uma medida prática de inclusão. Já os críticos concentraram-se em quem a campanha israelense escolheu destacar e no contraste com a necessidade urgente, em Gaza, de próteses, reabilitação e apoio de longo prazo a pessoas com deficiência.
Para o público, a diferença importante é entre o serviço em si — a opção de comprar um único tênis com desconto para quem precisa — e a decisão criativa local de usar Biton na campanha. O pedido de desculpas da Adidas tratou da ofensa causada pela ativação local, enquanto a empresa mantém que o programa mais amplo busca atender pessoas com diferenças nos membros em diversos países.
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