Depois da interceptação, as reportagens diferenciam o destino dos dois ativistas do restante do grupo: mais de 100 participantes foram levados para Creta, enquanto Ávila e Abu Keshek foram transferidos a Israel para interrogatório e permaneceram detidos após decisões judiciais que prorrogaram a custódia.
Ao chegar ao Brasil, Ávila afirmou que foi torturado sob custódia israelense e que presenciou abusos contra prisioneiros palestinos. Antes da deportação, o Dawn havia relatado que Ávila e Abu Keshek estavam em greve de fome em protesto contra supostos abusos físicos graves e contra a detenção que consideravam ilegal.
Segundo o Middle East Eye, a advogada Lubna Tuma, da Adalah, disse que os dois ativistas relataram ter sido agredidos, vendados e obrigados a ficar de bruços depois de serem separados dos demais integrantes da flotilha. A Adalah é uma organização jurídica que atua em defesa dos direitos da minoria árabe em Israel.
O Observatório para a Proteção de Defensores de Direitos Humanos, programa conjunto da FIDH e da OMCT, afirmou posteriormente ter sido informado pela Adalah sobre sequestro, detenção arbitrária e maus-tratos contra os dois ativistas.
Esses relatos são graves. Mas há uma distinção importante: nas fontes citadas, eles aparecem como denúncias e pedidos de investigação, não como uma conclusão independente definitiva sobre cada ato alegado.
A resposta pública israelense registrada nas reportagens se concentrou em interrogatório, custódia e deportação. Autoridades israelenses disseram inicialmente que levariam Ávila e Abu Keshek a Israel para interrogatório após a interceptação da flotilha. Depois, tribunais israelenses prorrogaram a detenção primeiro até 5 de maio e, em seguida, até 10 de maio.
Após a deportação, o Ministério das Relações Exteriores de Israel disse que os dois foram libertados e deportados depois que a investigação foi concluída. Reportagens baseadas na Reuters também afirmaram que a chancelaria israelense levantou suspeitas de segurança, incluindo a alegação de que Abu Keshek era suspeito de ligação com uma organização terrorista.
O material público disponível nas fontes citadas não traz uma refutação israelense detalhada às alegações específicas de Ávila sobre tortura ou sobre ter testemunhado abusos contra prisioneiros palestinos. Por isso, a deportação não encerrou a disputa em torno do caso.
Brasil e Espanha reagiram ainda no início do caso. A AP noticiou que os dois governos acusaram Israel de “sequestrar” seus cidadãos após a captura em águas internacionais; depois, cobertura baseada na Reuters afirmou que ambos consideravam a detenção ilegal.
A ONU pediu que Israel libertasse imediatamente Ávila e Abu Keshek e exigiu investigação sobre “relatos perturbadores” de que os dois teriam sofrido maus-tratos severos. O ICJP também pediu a libertação imediata e descreveu a detenção em águas internacionais perto da Grécia como ilegal.
Organizações de direitos humanos concentraram críticas em dois pontos: a jurisdição israelense e o tratamento dado aos detidos. A Adalah contestou a jurisdição de Israel durante o processo de prorrogação da custódia, segundo o Dawn. O Observatório da OMCT e da FIDH disse ter recebido da Adalah informações sobre sequestro, detenção arbitrária e atos de maus-tratos contra os dois ativistas.
A questão imediata da custódia foi resolvida: Ávila e Abu Keshek foram deportados de Israel. Mas as perguntas centrais permanecem abertas no registro citado: se a interceptação e a transferência dos dois a Israel foram legais, se as denúncias de tortura e abusos podem ser verificadas de forma independente e se alguma investigação pública tratará das acusações levantadas por Ávila, advogados, ONU e organizações de direitos humanos.
Por ora, o fato verificado mais claro é a deportação. A questão da responsabilização continua em aberto.
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