A cronologia do ataque foi particularmente irônica: ele ocorreu apenas três dias após o protocolo cross-chain Squid anunciar uma rodada de financiamento estratégico de US$ 6 milhões, liderada pela North Island Ventures e com participação da Ripple e outros investidores .
Imediatamente, a Squid se apressou em se distanciar do módulo explorado, afirmando que o SquidRouterModule era um componente de terceiros para Gnosis Safe e que a empresa "não o desenvolveu, implementou ou operou" . Os fundos roubados, trocados por DAI, permanecem na carteira do invasor até o momento, sem que nenhum congelamento ou recuperação tenha sido relatado .
O ataque mirou uma vulnerabilidade na função executeSameChainActions() do módulo SquidRouterModule. Basicamente, a função aceitava dados arbitrários e usava uma verificação de string fixa que os invasores conseguiam replicar com facilidade . A execução técnica se desenrolou em quatro etapas, como um passo a passo digital:
Esse vetor de ataque é diferente de outros grandes golpes de 2026. Desta vez, o criminoso não precisou forjar mensagens entre blockchains, um método comum em ataques a pontes. Em vez disso, abusou da permissão de um módulo de terceiros para sobrepujar a segurança da carteira . É como se alguém instalasse uma fechadura extra na sua porta, mas que pudesse ser aberta por qualquer chave mestra.
O ataque ao SquidRouterModule não poderia ter ocorrido em um momento mais sensível para a marca Squid. A diferença de poucos dias entre a comemoração e o alerta de segurança gerou grande confusão:
Em poucas horas, a Squid usou todos os seus canais para esclarecer que o contrato comprometido era "não relacionado à Squid" e arquiteturalmente distinto de seu protocolo de roteamento principal . A empresa enfatizou que os fundos dos seus usuários e os contratos do seu núcleo de operação não foram afetados . Essa defesa de marca foi crucial, pois o nome do módulo criava uma associação inevitável com a empresa .
O incidente com o SquidRouterModule é a ponta de um iceberg que fez de 2026 o pior ano da história para a segurança de pontes cross-chain (bridges). Essas pontes são como estradas que permitem que ativos digitais transitem entre diferentes blockchains (por exemplo, do Ethereum para a Solana), e se tornaram o principal alvo dos hackers.
| Data | Incidente | Prejuízo Aproximado |
|---|---|---|
| Fevereiro de 2026 | Hack da CrossCurve | ~US$ 3 milhões |
| 21 de Fevereiro de 2026 | Ponte ioTube da IoTeX | ~US$ 4,3 milhões |
| 01 de Abril de 2026 | Exploit do Drift Protocol | ~US$ 285 milhões |
| 18 de Abril de 2026 | Exploit da ponte da KelpDAO | ~US$ 292 milhões |
| 29 de Abril de 2026 | Ponte do Syndicate Commons | ~US$ 330 mil a US$ 400 mil (e queda de 35% no preço do token) |
| 18 de Maio de 2026 | Ponte Verus-Ethereum | ~US$ 11,6 milhões |
| 25 de Maio de 2026 | SquidRouterModule | ~US$ 3 milhões |
Segundo a firma de segurança PeckShield, até meados de maio de 2026, oito grandes ataques a pontes já haviam resultado em um rombo combinado de US$ 328,6 milhões . Somando todas as categorias de crimes com criptomoedas, o prejuízo total já passava de US$ 750 milhões em maio, com as pontes sendo o vetor de ataque mais significativo .
Os padrões de ataque variam, mas revelam fraquezas recorrentes. Mensagens forjadas entre blockchains viabilizaram os maiores golpes, como o da KelpDAO, onde criminosos criaram 116.500 tokens falsos do nada . Já o ataque ao SquidRouterModule adiciona um novo padrão: o abuso de permissões de módulos de terceiros para escapar de estruturas de segurança já estabelecidas . Para o usuário comum de Gnosis Safe, a lição é clara: cada módulo adicionado expande a superfície de ataque, e uma falha nesse módulo pode anular a proteção multi-sig que torna a carteira segura.
Até os últimos relatórios de 25 e 26 de maio de 2026, as criptomoedas roubadas, no valor de 3,07 milhões de DAI, permanecem na carteira do invasor. Não houve nenhum relato de recuperação, congelamento ou devolução dos fundos . O endereço usado no ataque foi financiado pelo Tornado Cash, um misturador de criptomoedas frequentemente usado em crimes DeFi para esconder a origem dos recursos . Até o momento, nenhuma prisão ou movimentação significativa dos fundos foi divulgada publicamente.
Este incidente escancara um problema crônico nas finanças descentralizadas (DeFi): até mesmo infraestruturas de carteira bem auditadas podem ser comprometidas por um único módulo de terceiros que o usuário instala sem uma análise minuciosa de sua segurança.