Esta é a história de como um único erro na configuração de compilação transformou um produto de segurança de ponta em uma máquina que gerava chaves privadas previsíveis, e por que as consequências ecoaram até o mercado de ETFs de Bitcoin à vista.
As carteiras Coldcard, fabricadas pela empresa canadense Coinkite, foram criadas com um único propósito: armazenamento de Bitcoin ultra-seguro. Sua proposta de valor central era que as chaves privadas nunca saíam do dispositivo, e a geração de sementes (seed phrases) deveria usar a aleatoriedade de um chip dedicado de geração de números aleatórios por hardware (RNG) .
O bug: Em março de 2021, a Coinkite lançou a versão de firmware 4.0.0 com um erro de configuração. Em vez de usar o chip de RNG dedicado para gerar a semente, o firmware silenciosamente recorria a um gerador de números pseudoaleatórios (PRNG) baseado em software . Uma flag interna — MICROPY_HW_ENABLE_RNG = 0 — efetivamente desabilitou o caminho da aleatoriedade por hardware .
A consequência: A entropia da semente despencou. Uma semente segura gerada por hardware oferece um espaço de chave de 128 bits — ou seja, 2¹²⁸ valores possíveis, um número astronomicamente grande e impraticável para força bruta. A alternativa por software reduziu isso a meros 40 bits, ou cerca de 4 bilhões de valores possíveis . Para um atacante determinado e com a informação certa, esse espaço de chave era pequeno o suficiente para ser enumerado remotamente.
Os invasores conseguiram reconstruir as frases-semente das carteiras combinando números de série dos dispositivos, leituras de relógio e outros dados publicamente observáveis com o espaço de chave reduzido . Em seguida, geravam sementes candidatas em suas próprias máquinas, derivavam endereços e verificavam esses endereços na blockchain do Bitcoin para encontrar carteiras com saldo. O ataque inteiro não exigiu acesso físico a nenhum dispositivo da vítima .
O exploit se desenrolou em múltiplas ondas, com a ação mais agressiva nas primeiras horas.
Em 4 de agosto, a Galaxy Research tinha alta confiança de que 1.596 BTC haviam sido roubados, com perdas não confirmadas adicionando mais US$ 30 milhões . O dano total se estabilizou em torno de US$ 130 milhões .
O hack desencadeou uma migração imediata. O Bitcoin registrou 2,27 milhões de novas carteiras e 751.000 carteiras ativas na primeira semana de agosto — a atividade on-chain mais forte em meses — enquanto os detentores corriam para tirar fundos dos dispositivos Coldcard .
Crucialmente, atualizar o firmware não resolvia o problema de uma semente já afetada. O único remédio era gerar uma nova semente em um firmware corrigido e migrar os fundos cuidadosamente . Isso significava que toda carteira cuja semente foi criada em versões vulneráveis do firmware (4.0.1 a 5.0.3, afetando modelos Mk2 e Mk3) estava permanentemente em risco até que o usuário movesse manualmente as moedas .
Na primeira semana de agosto de 2026, os ETFs de Bitcoin à vista dos EUA registraram entrada líquida de US$ 853,5 milhões — seu melhor desempenho semanal desde abril de 2026 . As entradas foram amplas, mas concentradas no topo:
O surto nos ETFs veio após um período de oito semanas de saídas que drenaram US$ 8,26 bilhões até o início de julho . A reversão foi abrupta e repentina — e sua coincidência com o hack da Coldcard alimentou especulações imediatas.
O timing foi impressionante. O ataque à Coldcard tornou-se público em 30 e 31 de julho. A sequência de entradas nos ETFs começou na segunda-feira, 3 de agosto. Mas na mesma semana, na sexta-feira, 7 de agosto, o Departamento do Trabalho dos EUA divulgou um relatório de empregos de julho chocantemente fraco. Ambos os eventos poderiam ter impulsionado a compra de ETFs, e os analistas permanecem divididos sobre qual foi a causa principal.
A maioria dos analistas pesquisados nos principais veículos concluiu que o surto nos ETFs foi provavelmente impulsionado por ambas as forças agindo na mesma direção . O hack forneceu uma justificativa de nível micro para a "fuga para a custódia regulada" — uma razão concreta para os detentores de autocustódia reconsiderarem sua configuração de segurança. O fraco relatório de empregos forneceu um catalisador macroeconômico de "apetite por risco" — o tipo de mudança ampla na política monetária que direciona capital institucional para todos os ativos de risco, incluindo o Bitcoin.
Como um analista da Bloomberg colocou, o elo causal entre o hack e as entradas nos ETFs é "incerto", mas a coincidência "alimentou o debate" . Uma análise do MSN Money concluiu que o hack forneceu uma "narrativa conveniente" para uma mudança que pode ter sido impulsionada por fatores macro, mas observou que o debate sobre custódia estava agora "em primeiro plano" pela primeira vez desde os primeiros dias dos ETFs de Bitcoin .
O que está claro: a semana de entrada de US$ 853,5 milhões foi a mais forte desde abril, e dois grandes eventos — uma falha de hardware de carteira que ocorre uma vez na vida e um relatório de empregos surpreendente — convergiram na mesma janela. Tanto a questão da custódia quanto as perspectivas macroeconômicas estão agora mais incertas do que estavam antes daquela semana. Essa incerteza, mais do que uma resposta definitiva, é a verdadeira conclusão.