O anúncio foi um choque para um mercado que já operava no limite. Dias antes, executivos de gigantes do setor já alertavam que o mundo caminhava para o esgotamento total dos estoques. "Estamos nos aproximando de níveis de inventário nunca antes vistos", declarou Neil Chapman, vice-presidente sênior da ExxonMobil, durante a Conferência de Decisões Estratégicas da Bernstein, em 28 de maio. Para ele, uma alta para US$ 150 ou até US$ 160 no barril do Brent era uma questão de "duas a três semanas" .
A justificativa principal apresentada pelo Irã foram as ações militares israelenses no Líbano. A Tasnim as classificou como os "crimes contínuos do regime sionista" e argumentou que, como a interrupção das hostilidades no Líbano era uma pré-condição para o acordo de cessar-fogo, a campanha de Israel invalidou todo o entendimento . Teerã foi categórico: as conversas não serão retomadas até que as operações israelenses cessem tanto no Líbano quanto em Gaza
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Esse não foi o primeiro desgaste no fio diplomático. Uma guerra aérea entre EUA e Israel contra o Irã havia começado em 28 de fevereiro de 2026, resultando na morte do líder supremo iraniano, Ali Khamenei . Como retaliação, o Irã fechou o Estreito de Ormuz à navegação estrangeira e lançou ataques contra alvos israelenses e aliados dos EUA. Um cessar-fogo temporário mediado pelo Paquistão em 8 de abril, que previa a reabertura do estreito, rapidamente fracassou, com o Irã restringindo o tráfego e responsabilizando os ataques israelenses
. Apesar dos esforços subsequentes dos EUA, incluindo uma breve pausa nas operações militares para buscar um "acordo completo e final", a via diplomática permaneceu por um fio até a suspensão definitiva de 1º de junho
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O anúncio não se resumiu a abandonar a mesa de negociações. A Guarda Revolucionária do Irã e a chamada "Frente de Resistência", que inclui grupos aliados no Iêmen, Líbano e Iraque, revelaram uma nova estratégia. O plano é "completar" o bloqueio do Estreito de Ormuz — uma via que já estava efetivamente fechada desde o final de fevereiro — e, ao mesmo tempo, "ativar" ou abrir uma nova frente de batalha no Estreito de Bab al-Mandeb .
Essa é uma escalada estrategicamente muito significativa. Enquanto Ormuz é a artéria principal para o petróleo bruto, condensado e gás natural liquefeito do Golfo Pérsico, Bab al-Mandeb é o portal para o Mar Vermelho e o Canal de Suez. Interromper o tráfego em ambos os pontos de estrangulamento limitaria severamente a capacidade de qualquer tráfego remanescente de petroleiros do Golfo ou redirecionado de chegar aos mercados europeu e norte-americano. Na prática, o mundo seria espremido por dois lados ao mesmo tempo.
O sinal mais alarmante para a economia global não é apenas a retórica geopolítica, mas os dados concretos do que ainda resta nos tanques. O mundo está queimando reservas de petróleo em um ritmo sem precedentes há mais de três meses, usando estoques armazenados para amortecer a perda de aproximadamente 11 milhões de barris por dia (b/d) de produção de petróleo bruto e condensado do Golfo, que permanece restrita pelo conflito .
Segundo a Agência Internacional de Energia (AIE), a oferta global de petróleo caiu mais 1,8 milhão de b/d em abril, atingindo 95,1 milhões de b/d, com as perdas totais desde fevereiro somando impressionantes 12,8 milhões de b/d. A produção dos países do Golfo afetados pelo fechamento de Ormuz estava 14,4 milhões de b/d abaixo dos níveis pré-guerra . Essas reservas de segurança estão agora praticamente exauridas, e o mercado se aproxima do que analistas chamam de "fundo do tanque" — o nível operacional mínimo de inventários para que refinarias e sistemas de distribuição funcionem normalmente
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Neil Chapman descreveu a situação na conferência da Bernstein de forma contundente: "Você pode debater se isso vai acontecer, esses níveis realmente baixos, em duas ou três semanas. Uma vez que você chega a esse ponto, você verá o preço disparar" . Ele previu que o Brent datado, referência física do petróleo, dispararia para a faixa de US$ 150–US$ 160
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O CEO da Chevron, Mike Wirth, fez um alerta paralelo, projetando que o Brent poderia chegar a US$ 150 em semanas. Sua preocupação recai sobre a mesma dinâmica: as reservas estratégicas de petróleo e os estoques da indústria privada que os EUA e outras nações ocidentais usaram para estabilizar os mercados nas fases iniciais da crise agora estão, em grande parte, esgotados .
No cenário mais severo modelado pela consultoria energética Wood Mackenzie, se o Estreito permanecer praticamente fechado até o fim do ano, o Brent poderia se aproximar de US$ 200 o barril, mesmo com a demanda global encolhendo em 6 milhões de b/d .
Como se a crise de oferta de petróleo bruto não fosse suficiente, a Rússia adicionou uma pressão extra sobre um derivado crítico para a mobilidade global. Moscou impôs uma proibição às exportações de querosene de aviação, válida até 30 de novembro de 2026. A medida chega em um momento em que as refinarias na Europa e na Ásia, já carentes de petróleo bruto do Golfo, lutam para produzir combustível de aviação. O veto russo elimina uma fonte alternativa crucial que poderia ter compensado parcialmente o déficit do Oriente Médio .
Analistas já alertaram que as companhias aéreas europeias podem enfrentar o racionamento de querosene de aviação em questão de semanas como consequência direta dessa crise dupla. A proibição russa amplifica a pressão sobre os preços, que na análise do cenário severo da Wood Mackenzie, podem disparar para até US$ 300 o barril nos principais centros de refino até o final do ano .
As condições do Irã para retornar às negociações são claras: uma interrupção total das operações militares israelenses no Líbano e em Gaza. Até que isso aconteça, a estratégia de bloqueio duplo permanecerá em vigor. Com os limiares críticos de estoque previstos para serem rompidos em semanas, o mercado de petróleo está entrando em uma fase extremamente perigosa, na qual a disponibilidade física de combustível — e não apenas o seu preço — se tornará o problema central para as nações importadoras.
Mesmo que um avanço diplomático se concretize, o dano à infraestrutura de produção no Golfo levará meses para ser revertido. Conforme observado pela AIE e pela Administração de Informação de Energia dos EUA (EIA), os padrões de produção e comércio pré-conflito não devem ser retomados até o final de 2026 ou início de 2027, e alguns produtores do Golfo Pérsico podem nunca mais retornar aos seus níveis de produção anteriores à guerra .