O conflito entre EUA e Irã, que escalou no início de 2026, criou uma clássica crise de oferta de energia para a Europa. As pesquisas do BCE revelam uma mudança imediata nas expectativas logo após a eclosão das hostilidades. Os analistas profissionais agora citam o petróleo e a energia como os fatores dominantes em suas perspectivas de inflação, enquanto as empresas da zona do euro relatam um salto repentino nos custos esperados de insumos, nos preços de venda e na inflação de curto prazo .
A presidente do BCE, Christine Lagarde, declarou que a guerra "tornou as perspectivas significativamente mais incertas" e terá "um impacto material na inflação de curto prazo" . O próprio chefe de economia da União Europeia, Valdis Dombrovskis, alertou que um conflito prolongado — com o petróleo Brent se mantendo em torno de US$ 100 por barril — poderia empurrar a inflação para acima de 3% e reduzir o crescimento de 2026 em até 0,4 ponto percentual
. São essas condições estagflacionárias que forçam a mão de um banco central.
Crucialmente, a inflação já não se restringe mais à energia. O núcleo da inflação, que exclui itens voláteis como alimentos e energia, acelerou inesperadamente para 2,5%, e a inflação de serviços saltou para 3,5% . Esse alastramento das pressões sobre os preços é alarmante para os formuladores de políticas, pois sugere que o choque energético está se infiltrando na economia como um todo, aumentando o risco de que as expectativas de inflação se desancorem.
A esperada alta de junho marca um fim definitivo para o ciclo de afrouxamento monetário de 2024-2025 do BCE. Após cortar os juros durante a maior parte desse período para apoiar uma economia frágil, o banco central manteve sua taxa de depósito em 2,00% desde julho de 2025. Essa guinada de 180 graus é impulsionada por uma lição crucial aprendida com o surto inflacionário de 2021-2022: o perigo de descartar um choque de oferta como "transitório".
As autoridades do BCE foram explícitas sobre seu desejo de evitar os erros do passado. Elas estão sinalizando uma abordagem mais proativa, estabelecendo um limiar mais baixo para intervir quando confrontadas com um choque geopolítico de energia . Isabel Schnabel, membro da diretoria do BCE, capturou o sentimento geral ao declarar: "Não podemos mais ignorar esse choque. O risco de desancoragem das expectativas de inflação está aumentando"
. Essa memória institucional construiu um consenso quase unânime pela ação.
As evidências de que uma alta está por vir são irrefutáveis. Uma pesquisa da Reuters com 80 economistas mostrou que 74 esperam um aumento de 0,25 ponto percentual em 11 de junho . O mercado futuro já precificava uma probabilidade de 92% para o movimento, uma convicção que se solidificou após a divulgação dos dados de inflação de maio
. A Polymarket, uma plataforma de apostas em eventos, mostrou um consenso de mais de 99% entre os traders por uma alta, após os mesmos dados
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Esse alinhamento entre economistas e mercados reflete uma avaliação compartilhada de que o BCE não tem muita escolha. A equipe de pesquisa do Danske Bank espera que as novas projeções da equipe do BCE, publicadas juntamente com a decisão sobre os juros, elevem a previsão de inflação de 2026 para 2,9%, ante os 2,6% anteriores, incorporando formalmente o impacto da energia nas projeções oficiais .
Agravando o problema energético estão as significativas interrupções no fornecimento da Noruega, a maior provedora de gás da Europa. A plataforma continental norueguesa passa por manutenção anual entre abril e setembro, mas a temporada de 2026 gerou um aperto notável no mercado .
O gigantesco campo de gás de Troll — o maior da Europa — e a planta de processamento onshore de Kollsnes foram alvo de paradas planejadas e não planejadas sobrepostas. Uma falha no compressor em Troll A, descoberta durante um teste anual em 21 de maio, levou a uma interrupção parcial que cortou a capacidade de envio em até 34,6 milhões de metros cúbicos por dia, ou cerca de 26% da vazão normal, durando até o final de maio . A manutenção em Troll e Kollsnes está programada para se estender até meados de junho, com dados da Gassco mostrando um impacto significativo até 19 de junho
. Essas interrupções norueguesas pressionam o mercado de gás exatamente no momento em que os riscos de oferta geopolítica já estão elevados, amplificando a pressão de alta sobre os preços que alimenta a postura hawkish do BCE.
Embora a alta de junho seja quase certa, a perspectiva de uma nova alta em setembro é altamente condicional. O economista-chefe do BCE, Philip Lane, alertou que uma guerra prolongada no Oriente Médio poderia aumentar significativamente a inflação da zona do euro e prejudicar o crescimento . A lógica de Frankfurt é clara: se o conflito persistir e mantiver os preços da energia elevados, o BCE será forçado a apertar novamente a política para evitar que um choque temporário se transforme em uma espiral de preços e salários.
A precificação de mercado atualmente indica uma probabilidade de cerca de 50% para uma segunda alta em setembro . O fator decisivo será a situação no Golfo Pérsico. Um cessar-fogo que estabilize os fluxos de petróleo e gás poderia permitir que o BCE fizesse uma pausa para avaliar o impacto defasado do movimento de junho. Por outro lado, um conflito prolongado que mantenha o petróleo Brent na faixa de US$ 95 a US$ 100 tornaria uma alta em setembro o cenário-base, conforme apontam analistas de instituições como o Nomura
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O BCE está navegando em um caminho precário. Precisa aumentar os juros para combater uma inflação movida pela energia que, sabe-se, pode prejudicar um crescimento já fraco. A decisão de 11 de junho é o primeiro passo nessa jornada difícil, mas o caminho além dele permanece inteiramente dependente da duração de uma guerra que o banco central não pode controlar.