Outro fator técnico, muitas vezes ignorado, contribui para a magnitude do movimento. Ao contrário do índice Topix (que é ponderado pelo valor de mercado das empresas), o Nikkei 225 é um índice ponderado por preço. Na prática, isso significa que ações com cotações unitárias muito altas, como a SoftBank Group, que era negociada a mais de ¥6.757 no final de maio, e a Advantest, têm um impacto desproporcional no índice. Quando esses pesos-pesados decolam, o Nikkei inteiro sobe muito mais rápido do que o mercado como um todo .
O dado mais preocupante da máxima histórica não é o número em si, mas quem o levou até lá. A fragilidade do atual momento do mercado japonês se revela na comparação dos índices. No dia em que o Nikkei quebrou a barreira dos 65.000 pontos, sua alta matinal de 2,88% foi mais que o dobro do avanço de 1,50% do Topix, o índice mais amplo. Esse descolamento é um sinal clássico e inequívoco de um mercado que se move por um fio .
Analistas de diferentes casas têm alertado que a tendência de alta está confinada quase que totalmente às grandes empresas ligadas a semicondutores e IA, aprofundando a superconcentração em ações de tecnologia . Esse fenômeno não é inédito. Em outubro de 2025, um salto de 2,2% do Nikkei foi carregado por apenas 43 das 225 ações da carteira teórica. Na ocasião, o movimento foi quase todo ele explicado pela forte alta da Advantest após revisar suas projeções de lucro
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Em 2026, o roteiro se repete. O mercado japonês está sendo movido por apostas temáticas em IA, e não por uma força econômica generalizada . Em diversos momentos, outros setores da economia real sofrem pressão vendedora, e não é raro o mercado mais amplo cair mesmo com o Nikkei em alta — uma distorção que preocupa investidores atentos
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Projetar o futuro do Nikkei se tornou uma tarefa ingrata. A amplitude das previsões para os próximos 12 a 18 meses jamais foi tão grande, escancarando a dificuldade de precificar um rali movido a expectativas e não a fundamentos amplos.
É curioso notar que a própria Daiwa, no final de 2025, mirava um patamar de apenas ¥56.000 para o final de 2026 — uma marca que o Nikkei já havia deixado para trás em mais de 18% . A revisão abrupta das metas mostra como a velocidade e a força do rali da IA atropelaram os modelos de projeção. Mesmo a mediana mais realista da Reuters para o fim de 2026, de ¥62.800, já vem com a ressalva de que a alta frágil e concentrada pode sofrer uma reversão a qualquer momento
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Se o rali não se espalhar para outros setores, o castelo de cartas pode ruir. Analistas apontam setores como o de defesa, financeiro e de demanda doméstica como potenciais candidatos a assumir a liderança, num movimento de rotação que poderia dar robustez à alta . O grupo financeiro Mitsubishi UFJ Financial Group (MUFG), por exemplo, tem sido negociado próximo de suas máximas históricas, oferecendo algum suporte para além do universo da tecnologia
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No entanto, até o final de maio de 2026, essa tal rotação não passou de uma miragem. As montadoras e a espinha dorsal da indústria japonesa tradicional continuam muito atrás, confirmando a tese de um mercado de duas marchas. De um lado, os foguetes da IA e dos semicondutores disparam. Do outro, o resto da economia patina . Até que essa lacuna comece a se fechar, o recorde histórico do Nikkei continuará refém de um clube muito seleto. E em qualquer clube seleto, se os sócios principais decidirem sair, a festa acaba para todos
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