O principal motor foi a melhora de preços. Segundo o Business Standard, citando documento da própria Aramco enviado à bolsa, a companhia se beneficiou de preços mais altos de petróleo bruto, combustíveis refinados e produtos químicos no período . O Khaleej Times também informou que a alta anual do lucro foi impulsionada por maiores vendas de petróleo bruto e preços mais elevados
.
Esse detalhe é importante porque mostra que a surpresa não veio de uma única frente. A Aramco ganhou tração no petróleo, mas também no chamado downstream — refino e produtos químicos —, partes relevantes da cadeia de hidrocarbonetos . A receita cresceu 8,8%, enquanto o lucro operacional avançou 16,3%, para SAR 222,54 bilhões, sinalizando que o lucro operacional cresceu mais rápido do que as vendas no trimestre
.
Apesar do lucro forte, o fluxo de caixa livre caiu. A Aramco reportou fluxo de caixa das atividades operacionais de US$ 30,7 bilhões, abaixo dos US$ 31,7 bilhões de um ano antes, e fluxo de caixa livre de US$ 18,6 bilhões, contra US$ 19,2 bilhões no 1º trimestre de 2025 . A empresa afirmou que o fluxo de caixa livre foi afetado por um aumento de US$ 15,8 bilhões no capital de giro
.
Para quem acompanha ações e dividendos, essa diferença importa. O lucro mostrou forte sensibilidade aos preços das commodities, mas a conversão em caixa foi menos robusta. A Aramco também informou US$ 12,1 bilhões em investimentos de capital no trimestre e declarou dividendo-base de US$ 21,9 bilhões, a ser pago no segundo trimestre .
Dá, mas não é automático. O mesmo conjunto de fatores que ajudou no 1º trimestre — petróleo bruto, derivados e produtos químicos mais caros — é cíclico e pode virar rapidamente .
As projeções para o petróleo em 2026 estão longe de um consenso. Um cenário citado pelo Business Standard, com base em perspectiva da Mirae Asset Sharekhan, vê o Brent em US$ 90 por barril no 4º trimestre de 2026 caso uma interrupção prolongada envolvendo o Irã e o Estreito de Hormuz mantenha a oferta apertada; esse cenário ainda teria risco de alta em caso de choque maior de oferta . Já o J.P. Morgan Global Research espera que o Brent fique em média em torno de US$ 60 por barril em 2026, citando fundamentos mais fracos de oferta e demanda e avaliando que interrupções prolongadas de oferta são improváveis
.
Os sinais de demanda também são mistos. A Opep reduziu sua previsão de demanda global por petróleo no 2º trimestre de 2026 para cerca de 105,07 milhões de barris por dia, abaixo da estimativa anterior de 105,57 milhões, citando o efeito da guerra em curso no Oriente Médio sobre o consumo; ao mesmo tempo, manteve a projeção de crescimento da demanda em 2026 em cerca de 1,4 milhão de barris por dia .
O resultado da Saudi Aramco no 1º trimestre de 2026 foi forte — e a surpresa foi real. Preços mais altos de petróleo bruto, combustíveis refinados e produtos químicos elevaram o lucro acima das expectativas . Mas o fluxo de caixa livre caiu na comparação anual, e as projeções para o Brent em 2026 vão de um cenário de US$ 90 por barril em caso de interrupções prolongadas a uma média perto de US$ 60 por barril em uma visão mais cautelosa
.
A leitura prática é simples: a Aramco pode continuar entregando lucros elevados se petróleo, refino e químicos permanecerem firmes. Repetir a escala da surpresa do 1º trimestre, porém, dependerá de três peças se encaixando ao mesmo tempo: preços, margens e capital de giro.