Essa dinâmica já era visível em maio, quando os NEVs atingiram uma fatia recorde de 62,9%, apesar de as vendas no varejo terem caído 7,5% em relação ao ano anterior, para 950.000 unidades . O mercado mais amplo de veículos de passeio contraiu 22,1% naquele mês
. Em outras palavras, a narrativa da eletrificação está sendo impulsionada em grande parte pela subtração — menos carros a gasolina vendidos — em vez da adição.
Analistas apontam o conflito no Oriente Médio como um acelerador crítico. O aumento dos custos globais de energia tornou os veículos a gasolina menos atraentes na hora de abastecer, dando às montadoras chinesas de elétricos "uma injeção de ânimo inesperada" . O momento é notável: justamente quando Pequim começava a reduzir os subsídios diretos e incentivos fiscais, a pressão externa do preço do petróleo entrou em cena para sustentar a vantagem de custo da condução elétrica.
O domínio da China na fabricação de veículos elétricos também cria uma proteção do lado da oferta. O país produziu 75% dos veículos elétricos do mundo em 2025, com a produção superando a demanda doméstica em cerca de 20% . Esse excesso de capacidade empurrou as exportações para um ritmo recorde — 894.000 veículos elétricos exportados apenas nos primeiros quatro meses de 2026
— e mantém os preços domésticos competitivos mesmo com a retirada do suporte oficial.
O fluxo de novos produtos impediu que o interesse do consumidor despencasse. BYD, Nio, Xiaomi e outras lançaram uma onda de novos modelos inteligentes de veículos elétricos, repletos de recursos de assistência ao motorista e tecnologia de carro conectado, sustentando o movimento nas concessionárias . Só a BYD vendeu 986.720 veículos no segundo trimestre de 2024, estabelecendo um recorde, e continuou a ancorar o mercado
.
No entanto, o sentimento geral do consumidor permanece cauteloso. As vendas totais de veículos de passeio no varejo caíram 23% em relação ao ano anterior na primeira semana de junho — um declínio mais acentuado do que o dos segmentos de elétricos puros ou a gasolina isoladamente . Relatórios do setor descrevem os compradores em modo de "esperar para ver", antecipando novos cortes de preços e os próximos lançamentos de modelos
. Esse padrão prejudica desproporcionalmente os veículos a gasolina, que carecem da novidade e da percepção de serem uma tecnologia à prova de futuro, ao contrário das alternativas elétricas.
O marco da CPCA é genuinamente histórico. Uma penetração de dois terços para veículos eletrificados no maior mercado automotivo do mundo representa uma mudança irreversível. Mas seria enganoso interpretá-lo como uma história triunfante de demanda. O volume total de vendas de NEVs, em 152.000 unidades na semana, caiu em relação ao ano anterior. O mercado geral contraiu-se fortemente. O recorde só foi possível porque os veículos com motor de combustão interna estão perdendo relevância em um ritmo ainda mais rápido.
Dados externos reforçam o quadro estrutural. A CAAM (associação de montadoras da China) relatou vendas de NEVs de 1,496 milhão de unidades em maio, um aumento de 14,4% em relação ao ano anterior quando as exportações são incluídas, representando 56,9% do total de vendas de veículos novos . As exportações são um ponto positivo, com as de veículos 100% elétricos crescendo 66,7% em 2025, para 1,65 milhão de unidades
. Mas o varejo doméstico amoleceu visivelmente.
No fim das contas, o número de 66,7% não é uma volta da vitória para a indústria de veículos elétricos, mas sim uma medida de quão rapidamente o motor de combustão interna está perdendo seu domínio sobre os consumidores chineses — espremido pela geopolítica, por uma enxurrada de modelos elétricos atraentes e por uma psicologia de compra que está cada vez menos disposta a apostar na tecnologia de ontem.