Trata-se de uma expansão industrial orgânica? Não. É uma mobilização ditada pelo Estado. O primeiro-ministro Mikhail Mishustin priorizou pessoalmente o auxílio estatal a produtores e inovadores de drones, incluindo fabricantes de itens civis convertidos para uso militar . O Kremlin está erguendo um “ecossistema de drones soberano” que perpassa estratégias federais, regionais e setoriais, com planos de instalar 48 centros de produção de drones até 2035
. Para analistas da Military Review, do Exército dos EUA, o resultado dessa política é um “exército movido a drones”, composto por plataformas descartáveis que trocam a sofisticação e a vida útil pela vantagem numérica bruta
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A fartura na produção de drones contrasta violentamente com a realidade dos programas de aeronaves civis russas, que estão travados ou sendo pura e simplesmente cancelados. Hoje, a frota de aviação comercial da Rússia é 80% importada e, desse montante, dois terços vêm de fabricantes europeus que estão agora isolados por sanções . O plano governamental de substituição de importações — que deveria entregar jatos nacionais SJ-100, MC-21, Tu-214 e Il-114-300 — sofreu atrasos sucessivos; as entregas foram postergadas em 1,5 a 2 anos
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O fracasso mais simbólico veio em maio de 2026. O turboélice TVRS-44 Ladoga, avião regional projetado para substituir os envelhecidos An-24 e An-26 da era soviética, teve sua versão civil suspensa. O projetista-chefe da Fábrica de Aviação Civil dos Urais, Sergey Merenkov, confirmou que a aeronave “foi reprojetada para atender a fins militares” . Ainda em 2025, o governo já havia cortado em 22% o financiamento para a produção de novas aeronaves e helicópteros, em meio a sucessivos atrasos industriais
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Sem conseguir fabricar aviões novos, a Rússia passou a desenterrar aeronaves estocadas desde a Guerra Fria para manter sua capacidade de passageiros. Até o começo de 2026, somente dez desses aviões reativados tinham voltado à condição operacional .
O dilúvio de drones é turbinado por uma economia que praticamente parou de crescer. Depois de exibir um crescimento médio de 4,5% do PIB em 2023–2024, a economia russa expandiu só 1% em 2025. Essa freada foi classificada pelo próprio Vladimir Putin como “provocada pelo homem” (man-made, no original em inglês) . A projeção do Banco Mundial é de que o crescimento fique abaixo de 1% no médio prazo, na casa de 0,7%, travado por uma política monetária apertada, pela dissipação do estímulo fiscal e pela falta de mão de obra (sugada pelo setor de defesa)
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Estamos vendo a velha lógica de “escolher entre canhões e manteiga” em sua forma mais concentrada. O SIPRI (Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo) calcula que os gastos federais com a guerra e com as Forças Armadas atingiram cerca de 16 trilhões de rublos em 2025, o equivalente a 7,5% do PIB . O orçamento de 2026 mantém os gastos com defesa e segurança nacional em aproximadamente 38% da despesa total, a despeito de cortes nominais que analistas descrevem como “truques contábeis, não uma falta de recursos”
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A escolha do Kremlin não é ambígua: ele está direcionando o escasso talento da engenharia, a capacidade das fábricas e o apoio financeiro estatal para a produção em massa de drones, enquanto aceita anos de estagnação econômica e o colapso de qualquer ambição de ter uma aviação civil pujante. Os números faustosos de crescimento do setor aeroespacial são reais, mas representam uma economia de guerra, não uma economia saudável. Como observa o centro de estudos Atlantic Council, a Rússia sente de forma cada vez mais aguda a tensão entre os gastos militares e os sociais — e os militares estão claramente vencendo essa queda de braço .
O recado não deixa margem para dúvidas. Moscou está disposta a sacrificar a modernização da indústria civil, o bem-estar do consumidor e o potencial de crescimento de longo prazo. O preço disso tudo? Sustentar uma guerra de atrito que é cada vez mais travada por um enxame de máquinas baratas e descartáveis.