A lógica central de Lunde é quase uma tese contrária (contrarian): justamente por estarmos todos tão pessimistas, o risco de uma capitulação violenta é menor. A liquidação alavancada já teria acontecido de forma mais lenta e dolorosa. Para a K33, o rali tímido de 2025 pavimentou um mercado de baixa mais moderado em 2026, com o Bitcoin devendo se consolidar entre US$ 60 mil e US$ 75 mil, sem sustos de 80% de queda .
Mas nem todo mundo comprou a ideia de que o pesadelo acabou. Para a Glassnode e a Galaxy Research, o mesmo processo de "amadurecimento" do mercado não está protegendo o preço — está apenas puxando o piso mais para baixo.
O cofundador da Glassnode, Rafael Schultze-Kraft, usou dois dos modelos mais confiáveis de dados on-chain para projetar uma zona de exaustão vendedora. O modelo CVDD (Cumulative Value Days Destroyed) aponta um suporte perto de US$ 46.200, enquanto o Preço Realizado Agregado da rede está em cerca de US$ 54.000. Juntos, criam um "cluster de suporte macroeconômico" de alta probabilidade entre US$ 46 mil e US$ 54 mil .
Essa teoria ganhou um sinal de alerta real no dia 5 de junho de 2026, quando o Bitcoin despencou momentaneamente para US$ 59.791, rompendo o preço médio de equilíbrio dos detentores pela primeira vez desde dezembro de 2022. O ativo roçou perigosamente a Média Móvel de 200 semanas (US$ 61.700) e o Preço Realizado Mediano (US$ 64.100) — uma zona de suporte que, segundo a Glassnode, apareceu em apenas 7% de toda a história do Bitcoin . Apesar do drama, o preço continuou acima da faixa mágica de US$ 46 mil a US$ 54 mil.
Já a Galaxy Research chega ao mesmo destino por um caminho diferente. Em seu relatório de junho de 2026, a gestora parte do pressuposto de que o fundo ainda não se formou. Analisando a redução gradual das quedas de ciclo para ciclo (os tombos estão ficando menores), a Galaxy projeta um piso base entre US$ 40 mil e US$ 46 mil em algum momento até o último trimestre de 2026. O topo mais calmo de outubro de 2025, nessa visão, gera um fundo mais raso que os de 2018 e 2022, mas ainda abaixo do que a K33 imagina .
Quem está lucrando com a volatilidade literalmente no mercado, a Wintermute, adota um tom cauteloso. A formadora de mercado não crava um número específico para o fundo, mas seus relatórios em junho de 2026 são um banho de água fria. A empresa identifica o verdadeiro vilão da queda: as saídas líquidas dos ETFs de Bitcoin à vista nos EUA, que somaram impressionantes US$ 2,97 bilhões em apenas 10 dias .
Para a Wintermute, é cedo para cantar vitória. O mercado só terá um piso duradouro quando os fluxos de capital para os ETFs e as stablecoins voltarem de forma consistente. Até lá, as condições típicas de baixa liquidez do verão americano ainda podem arrastar os preços para baixo .
No fundo, essa briga de gigantes não é sobre uma linha de suporte ou outra. É uma discussão filosófica sobre o DNA do Bitcoin. Os modelos tradicionais dizem que o fundo do ciclo está marcado para o último trimestre de 2026, cerca de 12 meses após o topo de outubro de 2025 . Por essa lógica, a queda de fevereiro foi só um susto no meio do caminho. A K33 responde que essa lógica já era — o ciclo de quatro anos está se despedaçando sob o peso dos ETFs, dos investidores institucionais e de uma política de juros que não é mais a farra de dinheiro barato do passado. Eles acreditam que, sim, desta vez é diferente
.
Já a dupla Glassnode-Galaxy não está presa ao passado, mas também não o ignora. Eles concordam que o mercado mudou e que as quedas serão menores. Apenas concluem que um ciclo menos intenso ainda gera um piso pior que o da K33 — uma aterrissagem em US$ 40 mil, não um pouso suave em US$ 60 mil. A grande dúvida para o investidor é se o pessimismo extremo de hoje é o prenúncio da virada, como quer a K33, ou apenas o prelúdio da última e derradeira perna de baixa.