É justamente essa nova realidade no front que, para Zelensky, abre uma "janela para negociações". A linha do tempo, contudo, é dramática. "Acredito que temos uma janela para negociações porque a Rússia perderá cada vez mais tropas a cada mês", declarou . O prazo final é claro: a chegada do inverno. "Antes do inverno, precisamos encontrar um caminho, um caminho diplomático, para sentar e conversar", afirmou
.
A estratégia é clara: capitalizar um posicionamento militar mais favorável antes que as condições sazonais imponham uma nova realidade no terreno, que poderia congelar não apenas o solo, mas também as perspectivas de um acordo .
Ao ser questionado diretamente se era possível uma saída negociada com a Rússia, Zelensky foi direto: "Sim, claro" . Ele mostrou flexibilidade ao citar diferentes formatos, incluindo as conversas trilaterais que ocorreram com os EUA no início do ano. No entanto, fez questão de detalhar o que considera o modelo mais robusto: uma mesa multilateral que inclua Ucrânia, Estados Unidos, Europa e Rússia
.
Zelensky deixou evidente que um acordo diplomático está longe de ser garantido e depende de pressão externa. Para ele, não basta querer negociar; é preciso forçar o Kremlin a isso. Ele cobrou que líderes mundiais apliquem "mais pressão", usando as sanções como principal ferramenta para compelir Vladimir Putin a se engajar de forma séria .
O argumento é que uma via diplomática antes do inverno é inviável sem um aumento simultâneo da pressão sobre o regime de Putin e o fortalecimento do regime de sanções por parte dos EUA e da Europa .
Talvez a parte mais incisiva da entrevista tenha sido o desabafo sobre o estado da diplomacia mediada pelos americanos. Zelensky reconheceu que as conversas estão paralisadas, e foi cirúrgico ao apontar o motivo: a mudança de prioridades da Casa Branca. "Eles mudaram o foco para o Oriente Médio e, por causa disso, acho que o Oriente Médio se tornou a prioridade. É por isso que temos algumas pausas em nossas negociações diplomáticas", explicou .
Esse travamento está diretamente ligado à atuação dos enviados especiais americanos, Steve Witkoff e Jared Kushner. Zelensky fez questão de notar um desequilíbrio incômodo: os negociadores foram várias vezes a Moscou, mas seus passaportes ainda não têm o carimbo de entrada em Kyiv . O convite, ou melhor, a cobrança pública, veio em forma de um apelo direto:
"Acho que é importante que eles venham à Ucrânia, para ver o povo, para ver como vivem e o que querem. Se eles querem ir a Moscou, deveriam primeiro ir a Kyiv", disparou .
O presidente argumentou que uma visão local da situação — ver de perto o custo da guerra e a vontade do povo ucraniano — é fundamental para que o lado americano entenda a real trajetória do conflito e as perspectivas para seu fim .
Todo esse imbróglio diplomático não é de hoje. Em dezembro de 2025, um encontro entre Zelensky e a delegação de Witkoff e Kushner, que estava previsto para acontecer em Kyiv, foi cancelado de última hora. O motivo? Na véspera, a dupla passou cinco horas reunida com Putin no Kremlin, em 2 de dezembro, em um encontro que terminou sem avanços concretos . Depois disso, os enviados se reuniram com representantes ucranianos na Flórida, em 6 de dezembro, e com o próprio Zelensky em Berlim, em 14 de dezembro, mas a visita à capital ucraniana jamais se concretizou
. Agora, Zelensky parece bater o pé para corrigir essa ausência de uma vez por todas.