Enquanto os diplomatas se reorganizam, uma crise paralela se aprofunda longe da mesa de negociações. A economia do Irã, já combalida por anos de sanções, entrou em uma fase de colapso hiperinflacionário e perda massiva de empregos que, segundo economistas, empurrará milhões para a pobreza, independentemente do desfecho político .
De acordo com reportagens do site Axios e de outros veículos que citam autoridades americanas, o rascunho do acordo foi estruturado como uma medida de 60 dias para construir confiança, projetada para desescalar o confronto militar imediato e criar espaço para negociações mais amplas . Suas principais provisões eram:
Autoridades americanas descreveram o documento como estando em seus estágios finais, com o Irã supostamente conduzindo uma revisão interna . Mas essa revisão logo foi atropelada por eventos em Washington.
Menos de 24 horas depois de Trump afirmar que um acordo estava “em grande parte negociado”, surgiram sinais de fricção . O The New York Times reportou que Trump, após uma reunião de duas horas na Sala de Situação, devolveu o rascunho com emendas, efetivamente reiniciando as negociações .
Três obstáculos principais vieram à tona:
Embora a Casa Branca não tenha detalhado publicamente cada mudança, Trump disse à Fox News que “não tem pressa” e ameaçou “acabar com isso de outra forma” se não conseguisse o que queria . Por sua vez, o Irã alegou, por meio de sua mídia semioficial, que os EUA estavam recuando de entendimentos anteriores, particularmente sobre o mecanismo de alívio de sanções e a liberação de US$ 12 bilhões em ativos congelados .
O impasse político obscurece uma verdade cruel: a guerra já quebrou a economia iraniana. O país enfrenta uma crise de estagflação que o FMI afirma que levará pelo menos até 2027 para ser revertida — e essa previsão pressupõe um fim completo do conflito .
Contração e hiperinflação
Enquanto o Banco Mundial havia projetado inicialmente um crescimento moderado para 2024/25, os dados mais recentes pintam um quadro muito diferente. A instituição estima que o PIB do Irã contraiu 2,7% no ano fiscal iraniano de 2025/26, e o FMI projeta uma contração adicional de 6,1% em 2026 . Alguns analistas esperam que a guerra encolha a economia em até 10% .
A inflação cruzou um limiar crítico. O Centro Estatístico do Irã confirmou uma taxa de inflação ponta a ponta de 71,8%, enquanto a taxa acumulada em 12 meses até março de 2026 ficou em 53,7% . O FMI prevê uma inflação média de 68,9% este ano .
Perda massiva de empregos e aprofundamento da pobreza
O custo humano é impressionante. Desde fevereiro de 2026, aproximadamente dois milhões de empregos foram perdidos, sendo um milhão de perdas diretas devido à guerra e outro milhão por efeitos colaterais, de acordo com autoridades iranianas e estimativas locais .
O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) alerta que até 4,1 milhões de pessoas a mais podem cair na pobreza por causa do conflito . Economistas independentes iranianos projetam que entre 3,5 e 4,5 milhões de pessoas adicionais cairão abaixo da linha da pobreza somente neste ano . Com estimativas já indicando que entre 22% e 50% dos iranianos viviam na pobreza antes da guerra, o total poderá em breve ultrapassar 40 milhões de pessoas .
Uma década de declínio acelerada
A crise atual é o ponto final violento de um longo declínio econômico. A renda nacional por pessoa no Irã despencou de cerca de US$ 8.000 em 2012 para US$ 5.000 em 2024, devastada pela inflação, corrupção e sanções . O Banco Mundial documentou uma “década perdida” de crescimento do PIB per capita, que se contraiu a uma taxa média anual de 0,6% entre 2011 e 2020 .
A guerra agravou esse cenário ao interromper rotas comerciais, causar apagões de internet e telecomunicações, e cortar a linha de vida do petróleo através do Estreito de Ormuz . O setor de serviços, que emprega mais da metade da força de trabalho, foi severamente impactado por essas interrupções . O Banco Mundial também alerta que a dependência de alimentos importados, combinada com as interrupções no transporte marítimo, aumentou significativamente os riscos de segurança alimentar .