O crescimento também aparece nos relatórios trimestrais de ransomware: no primeiro trimestre de 2026 foram 179 vítimas, um salto de 588% em relação às 26 vítimas registradas no último trimestre de 2025.
Assim como outras gangues modernas, o The Gentlemen opera com um modelo RaaS (ransomware‑as‑a‑service). Nesse formato, os desenvolvedores mantêm o malware e a infraestrutura, enquanto parceiros externos — chamados de afiliados — realizam as invasões e executam os ataques.
O banco de dados vazado revelou contas internas e informações operacionais ligadas ao painel de controle do serviço. Pesquisadores identificaram diversas contas de operadores conectadas ao sistema, administrado por um operador central conhecido como "zeta88" (também chamado de "hastalamuerte").
Nesse modelo de negócios:
Essa divisão permite que o grupo escale rapidamente, mantendo uma equipe central relativamente pequena.
Um dos pontos mais importantes revelados pelo vazamento foi o foco do grupo em infraestruturas de rede expostas na internet.
Pesquisadores ligaram várias intrusões do The Gentlemen a ataques contra dispositivos como firewalls, gateways VPN e sistemas de gerenciamento de rede, especialmente quando estão diretamente acessíveis pela internet.
Uma vulnerabilidade frequentemente associada às operações do grupo é a CVE‑2024‑55591, uma falha crítica de bypass de autenticação em FortiOS e FortiProxy. Esse bug permite que invasores remotos obtenham privilégios de superadministrador por meio de requisições manipuladas.
Ao comprometer esses equipamentos de borda — que ficam na entrada da rede corporativa — os atacantes conseguem contornar várias camadas tradicionais de defesa e ganhar acesso privilegiado ao ambiente interno.
Outro detalhe impressionante revelado por investigações de inteligência de ameaças é a escala da infraestrutura controlada pelo grupo.
Pesquisadores encontraram indícios de que a operação mantinha um registro com aproximadamente 14.700 dispositivos FortiGate já explorados ao redor do mundo, além de centenas de credenciais VPN válidas associadas a esses equipamentos.
Esse tipo de inventário funciona como um pipeline de ataques futuros. Uma vez obtido acesso ao dispositivo de perímetro, os criminosos podem se mover pela rede interna sem acionar as mesmas defesas que normalmente detectariam phishing ou malware.
Mesmo incompleto, o material vazado trouxe informações sobre como a gangue organizava suas campanhas.
Os canais de chat internos mostraram discussões relacionadas a:
Os dados incluem conversas em vários canais operacionais e registros do sistema de backend, permitindo aos pesquisadores reconstruir a cronologia de ataques e o fluxo de trabalho típico das campanhas de ransomware.
Além de expor detalhes sobre uma gangue específica, o vazamento reforça uma tendência maior no cibercrime atual: dispositivos de borda se tornaram um dos principais pontos de entrada para ataques de ransomware.
Muitas organizações concentram esforços de segurança em endpoints — computadores e servidores — mas deixam de monitorar com a mesma intensidade firewalls, VPNs e sistemas de gerenciamento de rede.
Quando esses dispositivos são comprometidos, invasores podem escalar privilégios, roubar credenciais e se mover lateralmente dentro da rede corporativa.
Medidas defensivas consideradas essenciais incluem:
O banco de dados vazado não revela toda a estrutura da organização The Gentlemen. Pesquisadores enfatizam que o material analisado representa apenas uma visão parcial das atividades internas do grupo.
Ainda assim, o vazamento oferece um raro olhar nos bastidores de uma operação moderna de ransomware‑as‑a‑service — e mostra como esses grupos podem crescer rapidamente quando combinam afiliados, ferramentas automatizadas e infraestrutura vulnerável na internet.
Para equipes de segurança, a conclusão é clara: a borda da rede se tornou uma das linhas de defesa mais críticas na era do ransomware.