A medição mais chamativa foi a proporção entre dióxido de carbono e água. Em aproximadamente 8 para 1, essa razão CO₂/H₂O é a mais alta já registrada em um cometa, ficando cerca de seis desvios padrão acima do valor típico observado nos cometas do Sistema Solar . Para se ter uma ideia, a maioria dos cometas da nossa vizinhança cósmica mostra muito mais água em relação ao CO₂. A proporção de monóxido de carbono para água, por outro lado, ficou mais próxima dos valores conhecidos, em torno de 1,4, sugerindo que o excesso de CO₂ não é um enriquecimento uniforme de todas as espécies portadoras de carbono, mas sim uma assinatura química específica da origem do cometa
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Durante as observações de acompanhamento em dezembro de 2025, enquanto o 3I/ATLAS se afastava do Sol, o instrumento MIRI (Mid-Infrared Instrument) do Webb confirmou a presença de gás metano (CH₄) — a primeira vez que o metano foi detectado diretamente em qualquer objeto interestelar . O sinal do metano só apareceu nessas observações posteriores, sugerindo que ele estava soterrado sob a superfície do cometa e foi liberado conforme o aquecimento solar penetrava camadas mais profundas
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A quantidade de metano em relação à água é surpreendentemente alta, com poucos exemplos comparáveis entre os cometas do Sistema Solar . Esse enriquecimento de metano e a abundância extrema de CO₂, quando combinados, apontam para um ambiente de formação com um balanço de carbono e oxigênio ou uma história térmica muito diferente do disco que formou os planetas ao redor do nosso Sol.
As esquisitices químicas do 3I/ATLAS não são aleatórias. Elas contam uma história coerente sobre o berço do cometa. O alto teor de CO₂ e a presença de metano subsuperficial protegido indicam que o cometa se condensou longe da sua estrela-mãe, numa região fria onde gelos de dióxido de carbono e metano conseguiram sobreviver e se acumular . O objeto parece ter permanecido praticamente intocado desde a sua formação, sendo um relicário pristino potencialmente com bilhões de anos de idade
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Observações feitas a partir da Terra com o Atacama Large Millimeter/submillimeter Array (ALMA) adicionam outra camada à história. O ALMA descobriu que o 3I/ATLAS é extraordinariamente rico em metanol (CH₃OH), com razões de metanol para cianeto de hidrogênio variando de 70 a 120 — o que o coloca entre os cometas mais ricos em metanol já estudados . Esse inventário orgânico, junto com o metano e o sulfeto de carbonila detectados pelo Webb, sugere que os blocos moleculares de construção da química prebiótica são comuns em discos de formação planetária para além do nosso.
Ainda não podemos visitar outro sistema planetário ou coletar uma amostra física de lá. Por isso, objetos interestelares como o 3I/ATLAS são singularmente valiosos: eles são amostras grátis do material que constrói planetas ao redor de outras estrelas. O espectro infravermelho do Webb para o 3I/ATLAS é o primeiro do tipo para qualquer objeto interestelar, fornecendo uma comparação química direta entre os cometas do nosso Sistema Solar e aqueles formados em outros lugares .
As descobertas sugerem que o disco protoplanetário onde o 3I/ATLAS nasceu possuía uma distribuição de voláteis diferente, provavelmente mais rica em gelos que contêm carbono, do que o disco que formou o nosso Sistema Solar. Essa diversidade química é consistente com o que os astrônomos estão aprendendo sobre a variedade de sistemas exoplanetários, mas o 3I/ATLAS oferece a primeira medição tangível, quase como a de um laboratório, dessa diversidade, vinda de um objeto real que chegou à nossa porta.
Enquanto o cometa continua sua jornada para fora do Sistema Solar, astrônomos estão combinando dados do Webb, do ALMA e da missão SPHEREx da NASA para construir o quadro mais completo já visto de um visitante interestelar . Cada conjunto de dados reforça a mesma conclusão: o 3I/ATLAS é um ponto fora da curva química, um registro congelado da era de formação planetária de uma estrela distante e um lembrete de que a galáxia está repleta de mundos construídos a partir de ingredientes ao mesmo tempo familiares e estranhos.