Diante desses números, uma taxa fixa de US$ 100 mil a US$ 200 mil parece quase troco. “Para mim, é melhor pagar uma taxa de US$ 100 mil ou US$ 200 mil, dependendo do tamanho da carga ou do tamanho do navio, do que ter toda essa dor de cabeça”, disse Marinakis, sugerindo que o pedágio poderia até cobrir os “danos” infligidos ao Irã .
A lacuna entre a proposta e a realidade, porém, é enorme. O valor sugerido por Marinakis está muito abaixo do que a Guarda Revolucionária Iraniana (IRGC) estaria exigindo na prática. Relatórios indicam que a IRGC vem cobrando até US$ 2 milhões por embarcação para autorizar a passagem por Ormuz, com a chamada “Autoridade do Estreito do Golfo Pérsico” iraniana impondo pedágios superiores a US$ 1 milhão por navio . Uma oferta de US$ 100 mil é inviável se o valor real cobrado é vinte vezes maior.
O mundo naval não fez fila para apoiar a ideia de Marinakis. No mesmo fórum Posidonia, executivos rivais declararam publicamente que o custo é uma preocupação secundária. A barreira real para a retomada do tráfego normal é a completa ausência de segurança.
Lideranças navais reunidas em Atenas deixaram claro que, mesmo que os EUA e o Irã fechem um cessar-fogo — no final de maio, negociava-se uma trégua de 60 dias —, os operadores comerciais não voltarão sem regras de passagem claras e garantias robustas de segurança . O temor não são apenas os custos do seguro, mas o risco à vida dos tripulantes. Um executivo no fórum lembrou que a prioridade número um é sempre a segurança e a evacuação da tripulação; sem garantias dos países em guerra, navios nenhum tornam a entrar numa zona de conflito
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Além disso, muitos armadores consideram que pagar um pedágio diretamente ao Irã é politicamente radioativo e potencialmente viola sanções internacionais . O argumento de Marinakis, de que “todo esse dinheiro pode pagar por todos os danos”, enquadra o pedágio como uma compensação pragmática. Para muitos departamentos jurídicos e Estados de bandeira, no entanto, qualquer pagamento a uma entidade sancionada, feito sob coação, é um campo minado legal
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Esse debate sobre pedágios acontece tendo como pano de fundo um ponto de estrangulamento naval praticamente paralisado há meses. O Estreito de Ormuz, por onde normalmente passa cerca de um quinto do suprimento mundial de petróleo, está efetivamente fechado ao tráfego comercial desde que a guerra entre EUA e Irã escalou, no começo de março de 2026 .
Uma cronologia de diplomacia fracassada e conflito:
O custo econômico em números:
No começo de junho de 2026, o bloqueio naval americano ao Irã continua em vigor e, embora haja relatos de que negociadores chegaram a um acordo preliminar para reabrir o estreito e estender o cessar-fogo por 60 dias, o pacto é frágil e enfrenta uma escalada militar contínua . A indústria naval, encurralada entre prêmios de seguro impagáveis e uma hidrovia intransitável, permanece num compasso de espera de desvios caros e incerteza crescente. A ideia do pedágio de Marinakis, por mais provocativa que seja, é, no fundo, o reflexo de um setor desesperado por qualquer estrutura de custo previsível numa cadeia de suprimentos que perdeu seu atalho mais crítico.