O detalhe mais contundente veio da própria força de trabalho da Tesla. A Reuters entrevistou nove ex-rotuladores de dados — trabalhadores responsáveis por treinar a IA que alimenta o FSD — que disseram não confiar na tecnologia para dirigi-los pessoalmente . Um ex-engenheiro de direção autônoma e 11 pesquisadores de segurança viária também foram entrevistados, pintando o que o site Electrek chamou de “um quadro contundente da lacuna entre o marketing de segurança da Tesla e a realidade do seu programa de condução autônoma” .
Os órgãos reguladores na Suécia e nos Países Baixos foram os destinatários dos dados agora questionados. Os números faziam parte do pedido formal da Tesla para que o FSD (Supervised) fosse aprovado para uso em vias públicas em toda a Europa, um processo que começou quando a Tesla procurou a autoridade rodoviária holandesa RDW no final de 2024 .
A resposta dos reguladores europeus foi excepcionalmente direta. E-mails internos obtidos pela Reuters de várias autoridades nacionais de veículos revelam um ceticismo significativo e contínuo em relação ao FSD .
Três preocupações específicas de segurança aparecem repetidamente nas correspondências :
O regulador holandês RDW — apesar de ter sido o primeiro a conceder aprovação nacional — fez questão de enfatizar que o FSD continua sendo um sistema de assistência ao motorista. Seus termos de aprovação exigem que o motorista permaneça totalmente alerta e pronto para assumir o controle a qualquer momento, proibindo explicitamente o uso de telefone ou leitura enquanto o sistema está ativo .
Os especialistas independentes foram mais diretos. Os dados que a Tesla apresentou à Suécia e aos Países Baixos “poderiam constituir propaganda enganosa”, de acordo com pesquisadores de segurança viária citados pela Reuters .
Até meados de junho de 2026, quatro Estados-membros da UE concederam aprovação nacional para o Full Self-Driving (Supervised) da Tesla em vias públicas :
| País | Data de Aprovação | Autoridade | Observações |
|---|---|---|---|
| Países Baixos | 10 de abril de 2026 | RDW | Primeiro país da UE; aprovação de tipo UN R-171 |
| Lituânia | 20 de maio de 2026 | Autoridade nacional | Segundo país; seguiu a liderança da RDW |
| Estônia | 29 de maio de 2026 | Autoridade nacional | Terceiro país; baseado na aprovação de tipo holandesa |
| Dinamarca | 9 de junho de 2026 | Autoridade Rodoviária Dinamarquesa | Quarto país; aprovação provisória |
Um quinto país, a Bélgica, teria aprovado o FSD em 10 de junho de 2026, elevando o total para cinco dos 27 Estados-membros da UE — cobrindo aproximadamente 8,9% da população do bloco .
Uma lista muito maior de países está com a aprovação regulatória do FSD pendente. O Vice-Presidente de IA da Tesla confirmou que pelo menos 12 países aguardam autorização, incluindo Alemanha, França, Itália, Espanha, Portugal, Irlanda, Luxemburgo, Noruega, Suécia e Reino Unido .
Mesmo com várias aprovações nacionais em mãos, o caminho da Tesla para uma autorização continental está longe de ser simples. Vários obstáculos estruturais e políticos estão no caminho.
O descompasso com a regra UN R-171. A via europeia da Tesla depende da conformidade com o Regulamento nº 171 da ONU, uma norma técnica originalmente escrita para sistemas de assistência ao motorista mais previsíveis e restritos. A combinação de comportamentos que a Tesla quer que o FSD (Supervised) execute — por exemplo, mudanças de faixa iniciadas pelo sistema sem as mãos no volante — não se encaixa perfeitamente no livro de regras existente . A empresa precisa de isenções por meio das cláusulas do Artigo 39 para comportamentos que ainda não são regulamentados ou são rigidamente restritos na Europa, o que confere às autoridades nacionais um papel significativo de controle .
O reconhecimento país por país é lento. Cada nação da UE deve reconhecer individualmente a aprovação de tipo holandesa ou conceder sua própria isenção. Embora a expectativa inicial fosse de que grandes mercados como Alemanha e França agissem dentro de 4 a 8 semanas após o sinal verde holandês, eles não o fizeram até meados de junho .
A votação no TCMV é o verdadeiro prêmio — e não tem prazo. Para uma aprovação verdadeiramente vinculativa em toda a UE, o assunto deve ser levado ao Comitê Técnico de Veículos Automotores (TCMV) para uma votação formal. Os Países Baixos já apresentaram seus dados de testes ao comitê , mas nenhuma data foi definida para votação, e os apetites políticos entre os Estados-membros estão visivelmente divididos .
Ceticismo regulatório sustentado. Aqueles e-mails internos obtidos pela Reuters não são de uma única autoridade cética, mas de várias, incluindo órgãos na Suécia e Finlândia . As preocupações sobre excesso de velocidade, estradas com gelo e atenção do motorista não são cosméticas; elas vão ao cerne da questão de saber se o sistema pode operar com segurança nos ambientes de condução altamente variados da Europa.
Risco no cronograma. A Tesla mirou publicamente uma implementação em toda a UE para o 2º e 3º trimestres de 2026 , mas esse cronograma agora parece otimista. O atrito regulatório, a falta de ação dos pesos pesados continentais Alemanha e França e a ausência de uma votação agendada no TCMV sugerem que o processo se estenderá além da janela declarada pela empresa.
A história do FSD europeu da Tesla em meados de 2026 é de vitórias nacionais incrementais e duramente conquistadas contra um pano de fundo de dúvidas baseadas em dados e cautela institucional. Quatro países de pequeno a médio porte da UE disseram sim; os maiores mercados automotivos do continente, não. A investigação da Reuters deu aos reguladores razões documentadas e específicas para atrasar suas decisões, e o processo fragmentado de aprovação nacional significa que a Tesla não pode simplesmente declarar um lançamento europeu por decreto.
O próximo ponto de inflexão é provavelmente a sessão WP.29 do Fórum Mundial da UNECE no final de junho de 2026, onde um projeto de regulamento técnico global sobre condução automatizada está para adoção . Se aprovado, poderia eventualmente simplificar o caminho de aprovação da Tesla — mas mesmo observadores otimistas reconhecem que a implantação em curto prazo ainda depende de convencer as autoridades nacionais que permanecem em cima do muro.