Montezemolo, a quem se credita a liderança da Ferrari durante uma era de ouro que rendeu 19 títulos mundiais na Fórmula 1, não economizou nas palavras. Sua crítica não teve como alvo os números de desempenho, mas sim a própria identidade da marca .
Primeiro, ele questionou o impacto do carro no legado da empresa. "Se eu dissesse tudo o que penso, prejudicaria a Ferrari. Existe o risco de destruir um mito, e lamento muito", disse ele aos repórteres . Esse alerta sobre a "destruição de um mito" pintou a Luce não como um marco tecnológico, mas como uma ameaça existencial à alma da marca.
Em seguida, atacou diretamente o direito do carro de ostentar o emblema do Cavallino Rampante. "Espero que ao menos tirem o Cavallino daquele carro", afirmou, argumentando que a Luce não é digna do símbolo mais sagrado da Ferrari . Para um ex-presidente, exigir a remoção do logotipo da empresa em um novo produto é uma reprimenda pública extraordinária.
Por fim, desferiu uma alfinetada sarcástica que ressaltou seu desprezo pelo design. "Pelo menos desta vez os chineses não vão conseguir copiar", comentou, insinuando que a estética do veículo não era desejável o suficiente para ser falsificada por concorrentes chineses, conhecidos por replicar designs de carros de luxo .
A reação dos investidores foi igualmente brutal. No primeiro dia de negociação após a apresentação, as ações da Ferrari (RACE) fecharam em forte queda de 8,37% na Bolsa de Valores de Milão, cotadas a €284,05 . Na Bolsa de Nova York, a ação recuou aproximadamente 5,1% .
A liquidação foi severa o suficiente para dizimar entre £3 bilhões e £4 bilhões (algo entre €3,5 bilhões e €4,7 bilhões, o equivalente a até R$ 29 bilhões) do valor de mercado da Ferrari em um único dia . Analistas apontaram para uma crise de confiança na estratégia da empresa. Pierre-Olivier Essig, chefe de pesquisa da AIR Capital, escreveu que o carro parecia uma "mistura de um Honda Accord elétrico com um Tesla Model 3", acrescentando: "Estamos perdidos na tradução da nova estratégia da Ferrari" .
Fabio Caldato, gestor de portfólio da AcomeA Sgr, que detém ações da Ferrari, disse à Reuters que a reação do mercado refletiu uma convergência de sentimentos negativos. "A Ferrari está sendo penalizada no momento devido a uma decepção estética, após preocupações significativas em relação à expansão do mercado de veículos elétricos no segmento de luxo", afirmou .
A recepção nas redes sociais foi massivamente negativa, com usuários comparando o veículo de €550.000 (cerca de R$ 3,5 milhões) a carros populares como o Honda Accord, o Nissan Leaf e a uma "minivan de uma Apple Store" .
Apesar da controvérsia, a Luce é uma conquista de engenharia significativa. Ela é construída sobre uma plataforma elétrica dedicada, desenvolvida inteiramente em Maranello e que carrega mais de 60 novas patentes .
O veículo representa uma ruptura radical com a silhueta tradicional dos esportivos de duas portas da Ferrari. Trata-se de um grand tourer de quatro portas e cinco lugares, com um perfil que remete ao estilo 'shooting brake' (uma perua de pegada esportiva) . O conjunto motriz é composto por quatro motores elétricos síncronos de ímã permanente — um para cada roda —, fornecendo tração integral e uma potência total de aproximadamente 1.050 cv, embora algumas fontes citem números entre 1.035 cv e 1.113 cv .
A energia é armazenada em uma bateria de 122 kWh que opera em uma arquitetura de 800 volts, permitindo carregamento rápido em corrente contínua (DC) de até 350 kW . A Ferrari declara uma autonomia de aproximadamente 530 km no ciclo WLTP (padrão europeu, mais otimista), mas a estimativa EPA (padrão americano, mais realista) deve ficar mais próxima de 450 km . O carro acelera de 0 a 100 km/h em cerca de 2,5 segundos, apesar de um considerável peso em ordem de marcha de 2.260 kg .
O interior foi projetado em colaboração com Jony Ive, o famoso ex-chefe de design da Apple, por meio de seu coletivo criativo LoveFrom. A empresa foi responsável pelo design interior e exterior, uma parceria que se mostrou particularmente polarizadora .
A Ferrari posicionou a Luce no topo absoluto de sua gama. O preço base é de €550.000 na Europa, o que se converte em algo próximo a US$ 640.000 no mercado americano . No Reino Unido, o preço inicial fica em torno de £500.000 antes da inclusão de opcionais . O veículo conta com uma garantia de 8 anos e quilometragem ilimitada para o conjunto motriz .
As encomendas foram abertas imediatamente após o lançamento. As entregas na Europa estão programadas para começar em outubro de 2026. Já os clientes nos Estados Unidos começarão a receber seus veículos no segundo trimestre de 2027 .
A recepção conturbada da Luce é apenas o capítulo mais recente da jornada de eletrificação cautelosa, e por vezes acidentada, da Ferrari. A empresa anunciou originalmente um ambicioso roteiro para veículos elétricos em 2022, com a meta de que modelos totalmente elétricos constituíssem 40% de sua linha até 2030, e o primeiro EV sendo lançado em 2025 .
Em outubro de 2025, essa ambição já havia sido drasticamente reduzida. Durante seu Capital Markets Day (evento para investidores), a nova estratégia oficial da Ferrari para 2030 mudou para um mix de produtos de 40% motores a combustão interna, 40% híbridos e apenas 20% veículos totalmente elétricos . A meta inicial de lançamento em 2025 também havia escorregado, com o carro chegando agora em meados de 2026 como a Luce .
O anúncio deste corte nas ambições elétricas já havia provocado outro evento financeiro grave: uma queda de 14% nas ações da Ferrari em um único dia, em outubro de 2025 .
Sob a liderança do CEO Benedetto Vigna, a Ferrari afirma que continuará lançando uma média de quatro novos modelos por ano entre 2026 e 2030. No entanto, o planejamento agora demonstra uma abordagem muito mais comedida em relação aos veículos elétricos a bateria. Há relatos de que o segundo EV planejado pela marca já foi adiado para pelo menos 2028 .