Segundo a autora, comentários feitos em discussões públicas ao vivo podem facilmente ser interpretados de maneira equivocada. Ela destacou que:
Tokarczuk explicou que usa inteligência artificial apenas como ferramenta prática de pesquisa, semelhante a um assistente digital. Entre os usos citados estão buscas rápidas por contexto histórico, organização de informações e verificação de fatos — e não a geração do texto literário em si.
A repercussão do caso mostra um dilema crescente no setor editorial: a diferença entre usar IA para apoiar o processo de trabalho e usar IA para produzir o texto de uma obra.
Muitos escritores já utilizam ferramentas digitais no dia a dia — mecanismos de busca, arquivos online, aplicativos de organização de notas ou programas de tradução. Modelos de linguagem podem ampliar esse papel ao ajudar em tarefas como pesquisa, brainstorming ou resumo de informações.
Mas quando a tecnologia passa a gerar trechos substanciais de prosa, surgem questões mais profundas:
Organizações do setor editorial têm alertado sobre esses riscos. A Authors Guild, associação que representa escritores, afirma que sistemas capazes de gerar livros inteiros podem representar uma ameaça à profissão se substituírem a autoria humana — embora reconheça que muitos autores utilizem IA para pesquisa, organização ou geração de ideias.
A reputação literária de Tokarczuk ajudou a amplificar a controvérsia. Seus romances — como Flights e Os Livros de Jacó — são conhecidos por uma voz narrativa muito particular e por estruturas complexas, qualidades que leitores associam diretamente ao trabalho humano do escritor.
Por isso, mesmo uma declaração ambígua sobre IA foi suficiente para despertar receios de que uma autora consagrada pudesse ter cruzado a linha entre usar tecnologia como ferramenta e usar tecnologia como coautora invisível.
Ao esclarecer suas palavras, Tokarczuk traçou uma fronteira clara para seu próprio trabalho: a inteligência artificial pode ajudar a reunir informações ou testar ideias, mas a criação literária — a voz, a estrutura e as palavras finais — continua sendo inteiramente humana.
O episódio também mostra como discussões sobre inteligência artificial podem rapidamente ganhar dimensão cultural.
Para alguns escritores, a tecnologia é apenas mais um instrumento no processo de pesquisa. Para outros, representa uma possível transformação na forma como livros são escritos, atribuídos e avaliados.
No caso de Tokarczuk, a resposta foi direta: a IA pode ajudar nos bastidores, mas a autoria — pelo menos em seus romances — permanece exclusivamente dela.