A reação do mercado mostra a gravidade das alegações dessa investigação, que representa uma escalada muito além das multas e planos de correção que a empresa acumulou nos últimos quatro anos.
A investigação, conduzida pela Procuradoria Pública de Bruxelas, apura se contas da Wise Europe foram usadas por grupos criminosos para lavar dinheiro vindo de crimes graves. Na mira das autoridades, estão transações ligadas a fraudes, corrupção e tráfico de drogas .
O escopo da apuração é expressivo. A investigação abrange mais de €500 milhões (cerca de R$ 2,9 bilhões) em transações suspeitas que passaram por contas da Wise e envolveram mais de 30 países europeus . O caso foi aberto depois que autoridades belgas perceberam que o nome da Wise aparecia repetidamente em centenas de pedidos internacionais de cooperação jurídica . Embora a investigação tenha começado em 2022, sua revelação pública em junho de 2026 e a descrição de que está "em estágio avançado" pegaram o mercado de surpresa .
Essa investigação criminal não surgiu do nada. No início de 2022, o Banco Nacional da Bélgica (BNB), que supervisiona as operações europeias da Wise, já havia identificado falhas significativas nos controles de prevenção à lavagem de dinheiro (AML). Na ocasião, o BNB constatou que a Wise não possuía comprovante de endereço de centenas de milhares de clientes — um requisito essencial das políticas de "Conheça Seu Cliente" (KYC). A empresa implementou um plano formal de correção, exigindo que os clientes afetados enviassem a documentação ou tivessem suas contas bloqueadas .
A Wise confirmou que está "trabalhando com o promotor de Bruxelas para responder a questionamentos sobre nossos negócios" . A empresa enfatizou que o contato com as autoridades não significa que alguma irregularidade foi constatada e que está cooperando integralmente com a investigação. Em comunicado, a companhia destacou que questionamentos de um promotor são parte rotineira dos negócios e não são, por si sós, "indícios de descumprimento de exigências antilavagem ou de qualquer irregularidade" .
Até o momento, não houve nenhuma acusação formal contra a Wise ou sua subsidiária europeia. A investigação ainda está em fase de inquérito, embora seu status "avançado" sugira que uma conclusão pode estar próxima .
Desde sua listagem pública em julho de 2021, a Wise acumulou uma onda de ações e investigações regulatórias ligadas a seus controles de compliance e antilavagem em três continentes. A investigação criminal belga é a escalada mais grave até agora, mas é o capítulo mais recente de um padrão claro.
Menos de um ano após o IPO, a Autoridade Reguladora de Serviços Financeiros (FSRA) do Mercado Global de Abu Dhabi multou a subsidiária local, Wise Nuqud, em US$ 360 mil (Dh 1,32 milhão) por não "estabelecer e manter sistemas e controles de AML adequados" . O regulador encontrou falhas específicas, como a incapacidade da empresa de verificar a origem dos fundos e do patrimônio de clientes de alto risco antes de executar transações. A análise da FSRA não encontrou indícios de lavagem de dinheiro concretizada, e o regulador registrou a cooperação e os esforços de correção da Wise .
Um exame coordenado por reguladores da Califórnia, Nova York, Massachusetts, Texas, Minnesota e Nebraska resultou em multa de US$ 4,2 milhões contra a Wise US, Inc. . A ação foi motivada por violações da Lei de Sigilo Bancário (Bank Secrecy Act - BSA) e de exigências do programa de prevenção à lavagem de dinheiro e ao financiamento do terrorismo (AML/CFT). O exame, que cobriu o período de julho de 2022 a setembro de 2023, revelou deficiências nas revisões internas de AML, nos procedimentos de devida diligência de clientes e nos processos de Relatório de Atividades Suspeitas (SAR) .
Como parte do acordo, a Wise foi obrigada a fazer uma varredura retroativa de contas já encerradas, aprimorar seus procedimentos de SAR e contratar uma empresa independente para verificar as ações corretivas. A empresa também terá de apresentar relatórios trimestrais de compliance aos estados por dois anos .
Não foi identificada nenhuma ação pública da FCA contra a Wise relacionada a controles antilavagem. Contudo, como instituição de moeda eletrônica e de pagamento autorizada pela FCA, a Wise opera sob supervisão contínua do regulador britânico para conformidade com crimes financeiros. A ausência de ação pública não indica falta de fiscalização, mas torna o Reino Unido a única grande jurisdição nesse padrão sem uma penalidade formal ou investigação conhecida.
O retrato geral é de uma fintech de alto crescimento com dificuldades para construir sistemas de compliance à altura da escala e complexidade de suas operações globais. As descobertas iniciais da Bélgica em 2022 podiam ser resolvidas com um plano de correção. As multas em Abu Dhabi e nos EUA, embora relevantes, eram ações regulatórias civis. A investigação criminal em Bruxelas representa um risco de outra magnitude — que pode levar a acusações criminais, multas muito maiores e um dano reputacional duradouro. A reação forte dos investidores em 1º de junho mostra o mercado recalibrando esse risco em tempo real.