Embora as vendas totais de veículos de nova energia (NEVs, na sigla em inglês) da BYD, que incluem os híbridos plug-in, continuassem altas, na casa das 700 mil unidades, a coroa dos carros puramente elétricos voltou para a montadora americana .
As vendas globais de BEVs subiram apenas 5% na comparação anual, representando 14% do total de vendas de veículos de passeio, conforme a Counterpoint Research . Já o mercado mais amplo de NEVs (BEVs, híbridos plug-in e veículos a célula de combustível) na verdade encolheu 2%, para 3,94 milhões de unidades, respondendo por 19% das vendas globais de carros .
O desempenho da Tesla no 1º tri de 2026 foi mais estável do que espetacular. O aumento de 6,5% nas entregas foi impulsionado por uma estratégia de preços agressiva, redução de estoques e demanda sustentada na América do Norte e na Europa . A empresa também ganhou tração justamente na China, onde os cortes de preços ajudaram as entregas a decolar — a Tesla China respondeu por cerca de 60% do total global durante o trimestre .
A Counterpoint Research observou que, embora a demanda global por BEVs tenha enfraquecido em várias regiões-chave, a estabilidade relativa da Tesla foi suficiente para retomar o primeiro posto assim que a BYD tropeçou . A linha de modelos mais enxuta e madura da empresa americana também ajudou a manter a produção relativamente eficiente em comparação com as rivais chinesas, que precisam gerenciar portfólios muito mais amplos.
A queda da BYD não foi resultado de uma súbita superioridade tecnológica da Tesla. Foi uma crise no mercado doméstico chinês, enraizada em três pressões simultâneas.
1. O fim dos subsídios. Os incentivos do governo chinês para a compra de veículos elétricos expiraram no final de dezembro de 2025. O resultado foi um clássico efeito de antecipação de demanda: as vendas dispararam no final de 2025, com compradores correndo para aproveitar os subsídios que estavam acabando, deixando um vácuo abrupto de demanda no 1º tri de 2026 . A China também reduziu os subsídios para troca de veículos de entrada, tanto elétricos puros quanto híbridos plug-in, apertando as condições financeiras para os compradores do segmento de massa .
2. Uma guerra de preços brutal. A competição doméstica feroz comprimiu margens e volumes em todas as marcas chinesas. Rivais como Geely (com sua marca premium Zeekr), Leapmotor, Nio, Xiaomi e Li Auto lutaram agressivamente no preço, corroendo a participação de mercado da BYD . As vendas totais de NEVs da BYD na China caíram entre 20% e 30% na comparação anual durante o trimestre, com a empresa registrando, em março de 2026, o sétimo mês consecutivo de queda nas vendas .
3. O ajuste mais amplo do mercado chinês de NEVs. A TrendForce caracterizou o período como um “período de ajuste” para o mercado de veículos de nova energia da China. As vendas gerais de NEVs no país caíram pela primeira vez em anos, e as montadoras chinesas, fortemente concentradas em seu mercado doméstico, foram as mais atingidas . BYD, Geely e SAIC-GM-Wuling — a segunda, terceira e quarta marcas no ranking de BEVs — todas viram suas vendas caírem em relação ao ano anterior .
O impacto financeiro foi severo. O lucro líquido da BYD despencou 55,4%, para 4,1 bilhões de yuans (aproximadamente US$ 600 milhões ou R$ 3,3 bilhões), o declínio trimestral mais acentuado desde 2020, acelerando em relação à queda de 38,2% registrada no 4º tri de 2025 . A receita caiu 11,8%, para 150,2 bilhões de yuans, marcando o terceiro trimestre consecutivo de declínio e o menor faturamento desde 2023 . Analistas do Citigroup estimaram que o negócio da BYD na China pode ter entrado no vermelho pela primeira vez durante o trimestre .
Enquanto o negócio doméstico da BYD se desfazia, suas operações internacionais dispararam — mas ainda não em uma escala capaz de fechar a lacuna.
As vendas externas da BYD, incluindo tanto elétricos puros quanto híbridos plug-in, cresceram fortemente no 1º tri de 2026. As exportações aumentaram entre 40% e 65% na comparação anual, com a receita no exterior subindo cerca de 40% . As exportações representaram aproximadamente 40% do volume total de vendas da BYD no trimestre, um salto em relação a uma fatia muito menor no ano anterior .
A montadora tem se expandido agressivamente para o Sudeste Asiático, Europa, América Latina e Oriente Médio, abrindo novas fábricas e canais de distribuição e introduzindo modelos com preços competitivos nessas regiões .
Ainda assim, a matemática não jogou a favor da BYD. Seu mercado doméstico continuava sendo a base de vendas dominante, e o volume absoluto perdido na China era simplesmente grande demais para ser compensado pelo crescimento das exportações apenas no segmento de BEVs. A expansão internacional, embora rápida, partiu de uma base menor e não foi suficiente para evitar a queda trimestral mais brusca em vendas e lucro que a BYD já viu em anos .
A mudança do 1º tri de 2026 foi menos uma vitória da Tesla e mais um tropeço da BYD — um tropeço enraizado no timing de políticas públicas, e não em superioridade de produto. Os dados da TrendForce e da Counterpoint Research destacam um mercado em que a liderança trimestral pode mudar tanto pela fraqueza relativa de um competidor quanto pela força absoluta do outro. O crescimento internacional da BYD sinaliza onde a próxima fase da competição será travada, mas o 1º tri de 2026 mostrou que a transição de gigante doméstica para potência global ainda está em construção.