Juntos, esses movimentos escancaram um mercado que parou de aplaudir a ambição com IA e começou a passar o pente-fino na fatura.
Olhando só para as manchetes, o quarto trimestre fiscal e o ano de 2026 da Oracle foram excepcionais :
Mas, escondida sob esses números, havia uma pressão crescente no balanço que os investidores acharam impossível ignorar:
A conta é clara: gerou caixa operacional recorde de US$ 32 bilhões, mas reinvestiu US$ 55,7 bilhões nos data centers de IA — e agora pretende torrar US$ 70 bilhões ou mais no próximo ano . Para tapar o rombo, recorre a dívida e diluição de acionistas numa escala jamais vista.
Como resumiu uma nota de analista, “o CapEx de quase US$ 55,7 bi e o fluxo de caixa livre negativo de US$ 23,7 bi transformaram o ‘batimento’ de resultado numa história de financiamento” . A fila bilionária de contratos prova que cliente não falta. A liquidação das ações prova que investidor não quer mais pagar a conta a qualquer custo.
Horas depois do balanço da Oracle, a SAP caiu cerca de 4% em 11 de junho . O gatilho não foi um relatório trimestral da alemã, mas uma nota do Goldman Sachs. O banco cortou sua previsão de margem bruta para o segundo semestre de 73,3% para 72,8%, mencionando explicitamente a alta esperada nos custos de hardware
.
A lógica é direta. Mesmo empresas como a SAP — que vendem principalmente software de gestão na nuvem, e não infraestrutura bruta — não estão imunes à onda de investimentos. Na medida em que as big techs despejam centenas de bilhões em data centers, o custo de computação, servidores e rede encarece toda a cadeia de tecnologia. Softwares corporativos cujos produtos rodam nessa infraestrutura sentem suas margens encolherem.
O ajuste do Goldman também reduziu a projeção de crescimento de EBIT (lucro antes de juros e impostos) para o ano cheio . Foi um rebaixamento pontual, mas seu timing e justificativa jogaram a SAP no mesmo liquidificador que já triturava a Oracle: o gasto setorial está tão descontrolado que até os custos indiretos já ameaçam as margens.
Os números da Oracle são extremos, mas não são um ponto fora da curva. Eles são parte de uma disparada de capital sem precedentes. As cinco maiores provedoras de nuvem e IA dos EUA — Amazon, Alphabet, Microsoft, Meta e Oracle — comprometeram juntas US$ 660 a US$ 690 bilhões em investimentos em 2026, quase o dobro dos cerca de US$ 380 bilhões gastos em 2025 .
Desse total, cerca de 75% — mais de US$ 450 bilhões — estão ligados especificamente à infraestrutura de IA: data centers, GPUs, chips personalizados e rede de altíssima velocidade . Para colocar a posição da Oracle em contexto
:
| Empresa | CapEx 2026 (estimado) | CapEx como % da Receita |
|---|---|---|
| Amazon | US$ 200 bi | ~25% |
| Alphabet | US$ 175–185 bi | — |
| Microsoft | ~US$ 145 bi (anualizado) | — |
| Meta | US$ 115–135 bi | — |
| Oracle | ~US$ 55,7 bi (realizado no ano fiscal 2026) | ~83–86% |
O índice de CapEx sobre receita da Oracle, na faixa de 83% a 86%, é o mais alto disparado do grupo. Para manter esse ritmo, a empresa depende quase que totalmente de financiamento externo . Enquanto Amazon, Alphabet e Microsoft conseguem bancar investimentos colossais com suas próprias máquinas geradoras de caixa, a Oracle se colocou numa sinuca: o crescimento de receita e a saúde do balanço estão andando em direções opostas.
As duas quedas em 11 de junho marcam uma virada na forma como o mercado avalia o crescimento turbinado por IA no setor de software. Três mudanças já estão visíveis:
1. Crescer a receita não basta mais. A carteira de US$ 638 bilhões da Oracle e o crescimento trimestral de 21% seriam comemorados em qualquer outro ciclo. Mas os investidores agora estão de olho no custo para construir essa carteira e no risco de financiamento necessário para entregá-la . A pergunta passou a ser se esses contratos vão gerar margens que justifiquem o investimento inicial.
2. A pressão de margem está se alastrando. O rebaixamento da SAP pelo Goldman escancara que o choque de custos não está restrito a provedores de infraestrutura. Até mesmo empresas de aplicativos corporativos enfrentam inflação de custos na medida em que o ecossistema de hardware e serviços em nuvem fica mais caro e estrangulado .
3. Risco de financiamento virou risco da ação. O plano da Oracle de levantar US$ 40 bilhões em dívida e ações é uma transferência direta do risco dos projetos para o acionista, na forma de diluição e maior alavancagem . O recado da liquidação no after-market é que os investidores não estão mais dispostos a dar um cheque em branco para a construção da infraestrutura de IA — querem ver prova de retorno, e não apenas prova de que a demanda existe.
A corrida armamentista da IA produziu números de receita impressionantes e um compromisso de quase US$ 690 bilhões em investimentos anuais que está redesenhando cadeias de suprimentos inteiras. Mas os eventos de 10 e 11 de junho de 2026 deixam claro que o segundo capítulo desta história — aquele em que a conta chega e as margens são testadas — já começou.