Essa reversão pesa sobre as ações porque juros longos mais altos encarecem o financiamento das empresas e reduzem o valor presente atribuído pelos investidores aos lucros futuros. O impacto tende a ser maior sobre companhias de crescimento, cujas avaliações dependem de resultados esperados para vários anos à frente.
As ações americanas recuaram à medida que os rendimentos dos Treasuries retomaram a alta. O S&P 500 caiu 0,9%, enquanto o Nasdaq 100 perdeu 0,7% e ampliou sua sequência de quedas para cinco sessões.
A queda em Nova York funcionou como um sinal negativo para os investidores asiáticos e reforçou a percepção de que a pressão no mercado de títulos não era apenas um problema temporário de liquidez.
A relação entre os dois mercados é direta: os rendimentos dos Treasuries influenciam os custos de financiamento e as avaliações de ativos em todo o mundo. Quando os juros longos sobem, os investidores podem exigir retornos maiores das ações, ao mesmo tempo que as empresas enfrentam um custo de capital mais alto. O resultado costuma ser uma redução do apetite por risco e mais realização de lucros.
A alta do petróleo também piorou o humor dos mercados. O avanço do preço do barril aumentou as preocupações com a inflação e com a possibilidade de os juros e os rendimentos dos títulos permanecerem elevados por mais tempo, anulando parte do alívio gerado pelo anúncio do Tesouro.
A energia mais cara pode pressionar os custos de transporte, produção industrial e consumo das famílias. Para os investidores, o risco é que uma nova aceleração dos preços limite o suporte que as expectativas de juros menores normalmente oferecem às bolsas.
O Japão enfrentou ainda uma fonte própria de cautela. A inflação subjacente ao consumidor, que exclui os alimentos frescos, mas inclui itens relacionados à energia, acelerou de 1,6% em junho para 1,8% em julho, na comparação anual. A alta foi associada, entre outros fatores, ao repasse de custos de importação em meio à fraqueza do iene e às pressões sobre a energia.
Os dados fortaleceram as expectativas de que o Banco do Japão — o BOJ, na sigla em inglês — possa considerar uma alta de juros em sua reunião de setembro.
Essa possibilidade tem implicações além do mercado japonês. Rendimentos domésticos mais altos podem tornar os títulos japoneses relativamente mais atraentes para investidores locais e reduzir a demanda por ativos de renda fixa no exterior. Somada à redução gradual das compras de títulos pelo BOJ, a perspectiva de aperto monetário pode ampliar a pressão sobre os títulos de longo prazo em outros mercados.
As evidências não indicam que o BOJ, sozinho, tenha provocado a queda das bolsas asiáticas. O dado de inflação do Japão adicionou um risco local de política monetária a uma reprecificação global já impulsionada pelos juros americanos, pelo petróleo e pelas preocupações fiscais.
A abertura mais fraca na Ásia refletiu uma reavaliação de riscos, e não um único gatilho. Os investidores estavam ponderando quatro forças relacionadas:
Juntas, essas forças criaram um ambiente de aversão ao risco para os mercados asiáticos. A intervenção do Tesouro pode amortecer o estresse, mas os investidores continuam céticos quanto à sua capacidade de reverter as pressões estruturais que empurram os juros longos para cima.