Embora a animação não seja reproduzida automaticamente, o banner aparece sempre que o veículo é ligado. Foi o suficiente para provocar uma onda de críticas em redes sociais e fóruns, especialmente entre pessoas que pagaram dezenas de milhares de dólares — em muitos casos, US$ 50 mil ou mais — por seus carros . Para os críticos, a tela de um veículo comprado deixou de ser apenas uma interface de controle e passou a funcionar como um outdoor particular.
A campanha começou em 27 de julho e está programada para terminar em 10 de agosto de 2026. Ela alcança modelos compatíveis com os sistemas BMW Operating System 7, 8, 8.5, 9 ou X, desde que tenham sido produzidos depois de julho de 2020 .
Ao dar a partida, o motorista vê uma mensagem com os dizeres: “Surpresa! O Homem-Aranha acabou de aparecer na sua BMW!” . Se tocar no banner, a tela central exibe uma animação promocional com som e iluminação interna. A peça também mostra o personagem interagindo com um SUV BMW iX3, em uma ação que promove tanto o filme quanto o veículo-conceito associado à parceria .
A reação foi imediata. “Pagar de 50 mil a 100 mil por um carro e ainda receber anúncios”, escreveu um usuário do Reddit. Outro comentário resumiu o receio de muitos proprietários: “Agora só falta um bloqueador de anúncios para carros” .
A BMW descreveu a ação como uma “animação festiva” e uma “surpresa especial”, vinculada a uma parceria mais ampla com a Sony Pictures e a Marvel. A montadora também destacou que seus veículos aparecem no filme .
A empresa afirma que o conteúdo não é exibido como uma propaganda em vídeo de reprodução automática: o motorista precisa tocar no banner para iniciar a experiência em tela cheia . A BMW também ressaltou que a campanha tem duração limitada e ficará disponível somente entre 27 de julho e 10 de agosto de 2026 . Bernd Körber, vice-presidente sênior de gestão da marca e dos produtos da BMW, classificou o lançamento da parceria como “adequado” .
Essa distinção, porém, não convenceu os críticos. Para eles, o problema começa antes da animação: o simples fato de uma mensagem promocional de terceiros aparecer na tela de um carro já vendido é visto como uma invasão indesejada.
A intensidade da revolta não está relacionada apenas ao filme. Ela é alimentada principalmente por dois fatores.
1. A campanha contradiz uma declaração pública anterior.
Em dezembro de 2023, Stephan Durach, vice-presidente sênior de desenvolvimento da empresa conectada do BMW Group, afirmou que a montadora não venderia espaço nas telas dos carros para a exibição de comerciais. Na ocasião, ele descreveu o interior do veículo como um “espaço privado” .
“Dizer que estou vendendo a tela para exibir um comercial… não vejo isso. É um espaço privado”, declarou Durach, segundo relatos publicados por veículos como Autoweek, TechSpot, BMW Blog e MediaPost .
Para os proprietários, o conteúdo de Spider-Man: Brand New Day se aproxima justamente do tipo de publicidade que a empresa havia dito que não pretendia colocar no painel. A diferença entre uma “surpresa” interativa e um anúncio comercial, portanto, parece insuficiente para quem considera a tela parte do espaço privado do veículo .
2. O histórico de assinaturas criou desconfiança.
A BMW já havia enfrentado forte reação negativa em 2022 e 2023 ao tentar cobrar uma assinatura mensal de aproximadamente US$ 18 pelo uso de bancos aquecidos instalados de fábrica — um recurso cujo hardware já estava presente no carro .
Depois das críticas, a montadora abandonou a assinatura dos bancos aquecidos em setembro de 2023. Executivos posteriormente reconheceram que a decisão havia sido um “erro” .
O episódio deixou uma impressão duradoura entre os clientes: a de que a BMW testa novos limites para gerar receita depois da venda. Primeiro, recursos físicos já instalados foram colocados atrás de uma cobrança recorrente; agora, a tela do carro é usada para uma campanha de uma empresa externa. Para os críticos, a sequência sugere uma tentativa contínua de descobrir quanto os proprietários aceitarão pagar — ou tolerar — depois de comprar o veículo .
A parceria promocional entre a Sony Pictures e a BMW teria sido avaliada em US$ 309 milhões em valor de mídia mundial, o maior acordo já registrado entre uma montadora e um filme .
É justamente por isso que o caso vai além de uma única campanha. Se a estratégia for considerada aceitável, outras fabricantes podem seguir o mesmo caminho e transformar telas de entretenimento e controle em canais permanentes para publicidade de terceiros.
O debate envolve uma pergunta simples, mas importante: quando alguém compra um carro conectado, continua sendo dono também da experiência exibida em suas telas? Para os críticos da BMW, permitir que uma montadora atualize remotamente o painel com anúncios cria um precedente perigoso — e qualquer receita imediata pode acabar custando caro à confiança na marca no longo prazo .