Essa estrutura precária está sendo testada por todos os lados: por disputas não resolvidas sobre o enriquecimento de urânio e o controle marítimo, e por uma facção linha-dura doméstica no Irã que vê qualquer negociação como uma traição.
O destino do acordo está atrelado ao poderio naval que está sufocando a economia iraniana. O bloqueio naval americano, imposto em 13 de abril de 2026 após o colapso das negociações em Islamabad, custa ao Irã cerca de US$ 400 milhões por dia em comércio perdido e se tornou a principal moeda de troca de Washington . Pelo rascunho do memorando, os EUA suspenderiam o bloqueio em troca de o Irã restaurar, em um mês, o transporte comercial pelo Estreito de Ormuz aos níveis anteriores à guerra . Contudo, Teerã já sinalizou que, mesmo durante uma trégua, não retomará a liberdade de navegação pré-conflito, buscando, em vez disso, controlar permanentemente a hidrovia que movimenta cerca de 20% do trânsito global de petróleo . Esse desacordo central faz com que até mesmo uma pausa temporária nos combates seja ofuscada por manobras estratégicas pelo domínio do estreito no longo prazo.
A tabela abaixo ilustra as principais posições sobre o Estreito de Ormuz, expondo o abismo que o pré-acordo tenta superar.
| Questão | Posição dos EUA e Aliados | Posição do Irã |
|---|---|---|
| Liberdade de Navegação | Acesso incondicional para toda a navegação comercial . | Estreito "aberto livremente" durante a trégua, mas a navegação pré-guerra não retornará; busca controle permanente e cobrança de taxas . |
| Bloqueio Naval | Suspenderá o bloqueio em troca da reabertura do estreito pelo Irã . | Exige o fim total e imediato do bloqueio como parte de qualquer acordo . |
| Remoção de Minas | O Irã deve remover todas as minas da hidrovia em 30 dias . | Nenhuma aceitação pública desta condição específica. |
O acordo provisório também prepara o terreno para uma nova rodada de conversas nucleares, justamente a questão que detonou o conflito quando as negociações anteriores fracassaram. A estrutura relatada afirma explicitamente que o Irã "não terá permissão para enriquecer urânio" . Isso cria um choque direto com as "linhas vermelhas" declaradas pelo país. Ebrahim Azizi, chefe da comissão de segurança nacional do parlamento iraniano, insistiu publicamente que o país não abrirá mão de seu direito ao enriquecimento, à posse de urânio enriquecido, ao controle do Estreito de Ormuz ou à sua exigência de alívio total das sanções .
Além das questões imediatas do bloqueio e do congelamento do enriquecimento, uma série de outros entraves significativos permanecem intocados pelo memorando preliminar, ficando para serem disputados em futuras negociações :
Talvez a ameaça mais imediata ao acordo venha de dentro do próprio Irã. Uma reação feroz dos linha-dura transformou vigílias noturnas de rua em uma campanha de pressão política contínua contra qualquer um disposto a dialogar com Washington . Esses grupos retratam o Irã como vitorioso e acusam o negociador-chefe, o presidente do Parlamento, Mohammad Bagher Ghalibaf, de violar as linhas vermelhas estabelecidas pelo finado Líder Supremo, Ali Khamenei .
Essa facção, descrita como um "grupo marginal, mas barulhento", exerce influência por meio de assentos no parlamento e no Conselho Supremo de Segurança Nacional, usando a mídia estatal para amplificar sua mensagem e mirar publicamente em Ghalibaf . A luta política interna é tão intensa que a rejeição anterior de Teerã aos termos dos EUA, em meados de maio, já havia alimentado temores de que o cessar-fogo entraria em colapso e os combates seriam retomados em questão de dias .
A extensão de 60 dias do cessar-fogo é uma balsa salva-vidas diplomática, não um tratado de paz. Ela depende da assinatura do presidente Trump, é ferozmente contestada pelos próprios oficiais iranianos que devem implementá-la e adia todas as disputas fundamentais para um futuro que é tudo, menos certo.