A fala de um diretor-geral do CERT-In da Índia, em outro fórum, captura a essência do alerta repetido em Tóquio: "A IA democratizou o conhecimento, com uma barreira de entrada baixíssima. Os maus atores têm o mesmo acesso que os bons atores" .
Talvez nenhuma ameaça tenha pairado tão grande quanto a dos deepfakes nas discussões de Tóquio. O que começou como uma curiosidade tecnológica amadureceu e se consolidou como um risco operacional embutido no dia a dia corporativo . A ascensão de plataformas de Deepfake-as-a-Service (DaaS) foi apontada como uma das viradas de jogo mais velozes, oferecendo kits de falsificação como serviço para criminosos de qualquer nível de habilidade
.
O impacto já é mensurável em toda a região da Ásia-Pacífico:
Os grupos criminosos que empregam essa tecnologia não agem mais de forma artesanal. Suas operações são industrializadas. As receitas de fraudes impulsionadas por IA agora superam as do tráfico global de drogas, e muitas dessas estruturas estão conectadas a graves violações de direitos humanos, incluindo o tráfico de pessoas para trabalho forçado em complexos de golpes no sudeste asiático .
Os alertas do Fórum Nikkei se alinham perfeitamente com a deterioração do ambiente geral de segurança digital. A conferência destacou como a IA também está acelerando o ritmo e a engenhosidade de ataques de ransomware, Ameaças Persistentes Avançadas (APT) e o crescimento de plataformas de Fraud-as-a-Service (FaaS).
O ransomware na Ásia-Pacífico disparou quase 58% e agora domina 44% de todas as violações de dados na região . A Agência de Cibersegurança de Singapura reportou um aumento de 21% nos incidentes de ransomware apenas em 2024, impulsionado por criminosos que usam IA para automatizar ataques
. Na Coreia do Sul, as violações de segurança cibernética aumentaram 26% em 2025 em comparação com o ano anterior, em parte devido a táticas de hackers potencializadas por IA
.
Enquanto isso, a economia digital em rápida expansão do sudeste asiático é cada vez mais explorada como plataforma de lançamento para ataques globais, com sistemas comprometidos sendo usados como proxies para mascarar a origem de invasões que miram organizações no mundo todo . Phishing aprimorado por IA, golpes de ClickFix e a exploração de ferramentas comerciais legítimas estão todos em ascensão
.
Um tema recorrente nos bastidores do fórum foi a urgência de regulação — um apelo que já está sendo respondido com pressa. Nos últimos 18 meses, pelo menos seis grandes estruturas regulatórias sobre identidade digital e IA entraram em vigor em países da APAC, uma reação direta ao crescimento explosivo das fraudes de identidade potencializadas por IA .
O Japão exemplifica a postura reativa que os governos agora são forçados a adotar. Em maio de 2026, o governo anunciou que emitirá alertas aos operadores de infraestrutura crítica vulneráveis a ciberataques movidos por IA, preocupação que aumentou com as capacidades demonstradas por modelos como o Claude Mythos da Anthropic . Tóquio também está correndo para estabelecer um protocolo com o Escritório Nacional de Segurança Cibernética para coordenar respostas a essas ameaças
. Indo além, o partido governante japonês pressiona por uma nova legislação sobre IA generativa, com rascunhos incluindo penalidades para desenvolvedores de modelos de fundação
.
Outras nações se movem em paralelo. O legislativo chinês aprovou revisões em sua lei de segurança da internet para enrijecer a supervisão da IA generativa e exigir a rotulagem de mídia sintética . A Coreia do Sul finalizou em dezembro de 2025 um "Plano Abrangente para Erradicar Anúncios Falsos ou Exagerados Gerados por IA", mirando no uso de deepfakes para se passar por profissionais de saúde e celebridades
. A ASEAN lançou um guia expandido de governança cobrindo riscos de deepfakes e uso responsável da IA
.
Apesar do frenesi regulatório, os participantes do painel reconheceram que leis sozinhas não são a solução. Como um especialista alertou, "a regulação estará sempre perseguindo a tecnologia" . O consenso foi de que é essencial um investimento igualmente rápido em detecção de ameaças baseada em IA, modernização da verificação de identidade e capacitação da força de trabalho
.
A mensagem central do Fórum Nikkei se alinha com o que os relatórios da indústria projetam: a IA está transformando o crime cibernético de oportunista para altamente planejado, automatizado e industrial. Os ataques são mais rápidos, mais personalizados e mais difíceis de detectar — e as defesas da região precisam evoluir no mesmo passo.