Contudo, em um intervalo de 24 horas, altos funcionários russos começaram a suavizar o tom. Em 26 de maio, o presidente do Comitê de Defesa da Duma (o parlamento russo), Andrei Kartapolov, afirmou que a Rússia não estava realmente ameaçando atacar o parlamento ou o gabinete presidencial ucranianos, alegando que esses edifícios não são os "verdadeiros" centros de decisão . O Ministério das Relações Exteriores da Ucrânia classificou o aviso original como "chantagem" e afirmou que o nível geral de ameaça a Kiev permanecia inalterado
. Embaixadas ocidentais ignoraram amplamente o pedido de evacuação, e os moradores de Kiev descreveram as ameaças como "nada de novo"
.
A retórica e os mísseis sobre Kiev se desenrolam em meio a uma ansiedade europeia mais profunda e estrutural. Em maio de 2026, várias autoridades de segurança nacional afirmaram ao jornal americano The Wall Street Journal que temem que Vladimir Putin possa tentar "reconfigurar o jogo" expandindo o conflito para além da Ucrânia — e que a Rússia poderia testar a coesão da OTAN já no próximo ano . Cenários potenciais incluem ataques aos países bálticos, ilhas da Suécia ou Dinamarca, ou território da aliança no Ártico
.
O serviço de inteligência militar holandês (MIVD) publicou um cronograma ainda mais preocupante em seu relatório anual de abril de 2026: a Rússia poderia estar pronta para iniciar um conflito regional com a OTAN dentro de um ano após o fim das hostilidades na Ucrânia. Crucialmente, o relatório julgou que o objetivo de Moscou não seria derrotar a OTAN militarmente, mas sim dividir politicamente a aliança, usando ganhos territoriais limitados — sob ameaça nuclear, se necessário .
Autoridades de defesa e legisladores da União Europeia disseram ao site Politico, no mesmo mês, que a Rússia pode ver o próximo ano ou dois como uma janela ideal para testar a OTAN, enquanto o presidente Trump estiver no cargo e antes que a Europa fortaleça significativamente suas próprias capacidades militares . O eurodeputado finlandês Mika Aaltola declarou sem rodeios: "Algo pode acontecer em breve – há uma janela de oportunidade para a Rússia"
.
Esses alertas se encaixam em um padrão mais amplo e antigo. O chefe do Estado-Maior da Alemanha, General Carsten Breuer, afirmou em junho de 2025 que a OTAN deveria se preparar para um possível ataque russo até 2029 . O secretário-geral da OTAN, Mark Rutte, alertou em dezembro de 2025 que a Rússia poderia atacar um país da OTAN em até cinco anos
. O ministro da Defesa alemão, Boris Pistorius, e outros generais da aliança apontam para uma janela entre 2027 e 2030 para um possível movimento russo contra o território da OTAN — enquanto os planos de rearmamento europeu não fecharão as lacunas críticas de capacidade até 2035
.
Nem todos os analistas concordam que um ataque militar russo deliberado à OTAN seja o cenário mais provável. Um comentário do Instituto de Estudos de Segurança da União Europeia, de janeiro de 2026, concluiu que uma guerra direta entre a OTAN e a Rússia permanece improvável em 2026, e que o risco maior está em “ações prolongadas que degradam progressivamente o ambiente de segurança da Europa, mantendo-se abaixo do limiar do Artigo 5º da OTAN” — artigo que trata da defesa coletiva . O Eurasia Group previu de forma semelhante que a frente mais perigosa em 2026 seria a guerra híbrida entre a Rússia e a OTAN — com sabotagem de infraestrutura, invasões de espaço aéreo e interferência eleitoral — em vez de uma invasão convencional
.
A terceira crise é a redução ativa da presença militar dos EUA na Europa pelo governo Trump. Isso vai além da pressão retórica dos anos anteriores e agora envolve retiradas concretas de tropas, cancelamento de envios programados e uma redução planejada das capacidades prometidas para situações de crise.
Em 1º de maio de 2026, o Pentágono anunciou que removeria cerca de 5.000 soldados da Alemanha em um prazo de seis a doze meses . O presidente Trump sinalizou possíveis reduções também na Espanha e na Itália
. Em 14 de maio, o secretário de Defesa, Pete Hegseth, foi além, cancelando abruptamente duas missões de envio de tropas dos EUA para a Europa e ordenando a remoção de outros militares do continente — incluindo uma rotação planejada da 2ª Brigada de Combate Blindada pela Polônia e pelos estados bálticos
.
De forma ainda mais significativa, no final de maio de 2026, o governo se preparava para comunicar aos aliados que os EUA iriam reduzir o conjunto de capacidades militares que disponibilizariam à OTAN em uma grande crise . Três fontes disseram à publicação especializada Defense News que o Pentágono havia decidido "reduzir significativamente seu compromisso" — o que significa uma redução nas forças prometidas para tempos de guerra, e não apenas uma realocação em tempos de paz
. O canal Euronews informou que a presença total dos EUA em território da OTAN era de cerca de 76.000 soldados antes desses cortes, abaixo dos aproximadamente 80.000 a 100.000 em vários momentos desde 2022
.
Há atritos legais e políticos. Uma lei de defesa dos EUA de 2026 não proíbe totalmente as retiradas de tropas, mas exige consultas detalhadas e justificativas para cortes que reduzam o total para menos de 76.000 por mais de 45 dias consecutivos . O presidente Trump, no entanto, afirmou que os EUA irão “muito além” dos 5.000 soldados já anunciados
.
O Instituto de Estudos de Segurança da União Europeia descreveu a Europa de hoje como estando diante do "ambiente de segurança mais perigoso em décadas" . O que torna o momento especialmente frágil é o alinhamento de três tendências distintas, mas que se reforçam mutuamente:
Os cenários mapeados pelo Atlantic Council — incluindo uma possível tomada russa de território na Noruega, Finlândia ou Estônia — são exercícios de planejamento, não previsões . A inteligência holandesa enquadra explicitamente qualquer conflito russo com a OTAN como uma operação política que visa dividir a aliança, e não como uma tentativa de vitória militar
. No entanto, mesmo sem um ataque deliberado, autoridades europeias estão discretamente avançando em planos de contingência para uma “OTAN Europeia” que poderia manter a dissuasão caso o apoio dos EUA diminua ainda mais
.
O que fica claro a partir da ampla gama de avaliações de fontes abertas é que não há um cronograma único de consenso. Alguns chefes de inteligência europeus alertam para uma preparação russa dentro de um ano após uma pausa na Ucrânia; generais da OTAN apontam para 2027–2030; outros analistas esperam que a escalada híbrida, em vez da convencional, domine 2026. Mas em quase todas as avaliações, um julgamento é compartilhado: a aliança está entrando em um período no qual sua coesão será testada em múltiplas dimensões ao mesmo tempo, e as antigas garantias não podem mais ser tidas como favas contadas.
Comments
0 comments