Esse valor de mercado supera o da Tesla, também de Musk, e torna a SpaceX maior do que a Microsoft, ficando atrás apenas de Apple e Nvidia entre as empresas de capital aberto nos EUA . O recorde anterior de maior IPO pertencia à petroleira saudita Saudi Aramco, que levantou US$ 29 bilhões em 2019. A captação da SpaceX mais do que dobra esse valor
.
O roadshow para investidores foi lançado com pompa em 4 de junho. O evento foi realizado no JPMorgan, em Manhattan, e foi conduzido pelo próprio CEO do banco, Jamie Dimon, diante de uma plateia de aproximadamente 3.500 dos clientes mais endinheirados da instituição. Dimon entrevistou pessoalmente Elon Musk, que participou remotamente, e abriu o evento chamando Musk de "o Edison do nosso tempo" . A frase viralizou rapidamente e, segundo relatos, gerou uma resposta do próprio Musk
.
A mãe de Musk, Maye Musk, fez uma participação especial como convidada . A presidente da SpaceX, Gwynne Shotwell, e o diretor financeiro, Bret Johnsen, também se apresentaram ao lado de Dimon, mostrando a visão da empresa não só para os gigantes institucionais, mas também para um público mais amplo que em breve incluiria uma enorme onda de pequenos investidores
.
Para justificar uma avaliação que se aproxima de US$ 2 trilhões para uma empresa que registrou um prejuízo líquido de US$ 4,9 bilhões em 2025, Musk não estava vendendo apenas lançamentos de foguetes. Ele estava vendendo um futuro de ficção científica. De acordo com vários relatos, sua apresentação incluiu data centers de IA no espaço, bases lunares, a colonização de Marte e até mesmo "hotéis na Lua" em órbita .
Ele enquadrou o IPO como um mecanismo necessário para financiar a expansão da humanidade para além da Terra, unindo o negócio de internet via satélite Starlink, o colossal foguete Starship e sua divisão de defesa Starshield em uma única narrativa coerente . Musk argumentou que o espaço oferece um potencial energético inexplorado de até 1.000 terawatts (TW), ofuscando o 1 TW utilizado atualmente na Terra
. Ele também esboçou um plano de expandir a constelação Starlink dos atuais 7.000 satélites para impressionantes 100.000 no futuro
.
Dias antes da estreia pública, a SpaceX fez uma divulgação que adicionou receita concreta à narrativa de ficção científica. Em 5 de junho, um prospecto atualizado revelou que o Google havia assinado um enorme contrato plurianual de serviços de nuvem com a SpaceX. Pelos termos, o Google pagará à SpaceX aproximadamente US$ 920 milhões por mês — quase R$ 5 bilhões na cotação atual — de outubro de 2026 até junho de 2029, pelo acesso à capacidade de computação nos data centers da empresa . O valor total do contrato chega aos US$ 30 bilhões
.
O acordo concede ao Google acesso a cerca de 110.000 unidades de processamento gráfico (GPUs) da Nvidia, além de CPUs e memória associadas . A infraestrutura foi originalmente construída para a xAI, o laboratório de inteligência artificial de Musk (que se fundiu com a SpaceX em fevereiro de 2026)
. O acordo, na prática, transforma a SpaceX em uma grande "proprietária de imóveis" para o boom da IA, monetizando sua vasta rede de data centers em um momento em que nem gigantes da tecnologia, como o Google, conseguem construir capacidade computacional rápido o suficiente para atender à demanda por modelos como o Gemini
.
Apesar da visão futurista e do chamativo acordo com o Google, os fundamentos financeiros da SpaceX continuam sendo um ponto de intenso debate em Wall Street. Para você, investidor, ter uma ideia da situação real da empresa, os números são estes:
Vários analistas de pesquisa de ações independentes concluíram que a ação vale aproximadamente metade do preço pedido de US$ 135, o que gerou alertas significativos para os pequenos investidores que podem estar comprando a ideia apenas pelo entusiasmo . Além disso, a S&P decidiu adiar a inclusão do papel SPCX em grandes índices como o S&P 500 por pelo menos um ano após a listagem. Isso significa que os fundos de índice passivos (como os ETFs que replicam o S&P 500 e são comuns no Brasil via BDRs) não serão forçados a comprar o papel até, pelo menos, meados de 2027.
Em uma mudança de paradigma para mega-IPOs, a SpaceX destinou impressionantes 30% da oferta — cerca de US$ 22,5 bilhões em ações — diretamente para investidores de varejo (pessoas físicas como você e eu). Isso é de três a seis vezes mais do que a típica alocação de 5-10% vista na maioria dos grandes lançamentos na bolsa .
Para facilitar isso, a Fidelity Investments reduziu o saldo mínimo exigido para participar do IPO de seus habituais US$ 500.000 para apenas US$ 2.000 (aproximadamente R$ 10 mil) . Outras plataformas de varejo participantes incluem Robinhood (que não exige saldo mínimo), Charles Schwab, SoFi e o E*TRADE do Morgan Stanley
.
Embora o acesso tenha sido democratizado, a garantia de receber as ações não existe. Dado que a demanda é o dobro da oferta, a maioria dos pequenos investidores que fizer uma "indicação de interesse" (uma reserva não vinculante) deve esperar receber apenas uma fração do que pediu ou, em muitos casos, nenhuma alocação antes do IPO, sendo obrigados a comprar os papéis no mercado aberto assim que o código SPCX começar a ser negociado .
Vinte e um bancos estão coordenando a operação, com o Goldman Sachs no papel de líder principal . O acesso de investidores europeus também foi habilitado por meio de plataformas como a Trade Republic, enquanto os bancos coordenadores teriam sido instruídos a não aceitar ordens de investidores de Hong Kong e da China, devido a restrições americanas à exportação de tecnologia crítica
.