A alegação do FSB de que Cloudflare e Fastly ajudaram a extrair dados de smartphones hackeados de autoridades não é verificável, sem provas públicas, e repete o padrão de acusações russas anteriores sem evidências con... A denúncia de 2 de junho de 2026 é o passo mais recente em uma campanha russa documentada que in...

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Em 2 de junho de 2026, o Serviço Federal de Segurança (FSB) da Rússia fez uma acusação explosiva: agências de inteligência ocidentais, com a ajuda da infraestrutura das empresas americanas de serviços web Cloudflare e Fastly, hackearam os smartphones de altos funcionários do governo russo . A alegação veio sem nenhuma prova pública e representa a escalada retórica mais agressiva em um longo esforço russo para desmantelar o acesso a serviços de internet ocidentais dentro do país.
O FSB descreveu uma “operação em larga escala” envolvendo a instalação de software malicioso nos dispositivos móveis de pessoal russo de alto escalão . Segundo a agência, esse spyware foi usado para extrair dados armazenados secretamente, ouvir conversas ao vivo e monitorar remotamente o ambiente ao redor dos aparelhos
. Um agente do FSB citado pela agência estatal de notícias TASS sugeriu que os chefes da espionagem estrangeira decidiram que era “mais simples e barato hackear telefones celulares do que recrutar informantes de alto valor entre os detentores de segredos de Estado”
.
Crucialmente, a declaração do FSB não acusou funcionários da Cloudflare e da Fastly de escrever o malware ou orquestrar os ataques diretamente. Em vez disso, a agência alegou que as “capacidades técnicas” dessas empresas foram “utilizadas” na operação — uma frase ampla o suficiente para sugerir que suas redes de distribuição de conteúdo, serviços de segurança ou infraestrutura de proxy reverso tiveram um papel na extração de dados ou na comunicação . Para acompanhar o anúncio, o FSB divulgou imagens de vídeo do escritório da Cloudflare em São Francisco, das unidades da Fastly em São Francisco e Londres, e de um prédio não identificado em Nova York, insinuando uma conexão com o desenvolvimento do spyware ou o controle operacional
.
O FSB não nomeou explicitamente os Estados Unidos, mas destacou que ministérios do governo britânico, incluindo o Ministério da Defesa, eram clientes dos serviços de segurança de rede da Cloudflare e da Fastly . A mídia estatal russa, no entanto, caracterizou o esquema como orquestrado pela “inteligência dos EUA e do Reino Unido”
.
Nenhuma investigação independente verificou qualquer parte da alegação. Nem a Cloudflare nem a Fastly comentaram publicamente a acusação específica, e o FSB não divulgou evidências forenses do malware, logs de rede mostrando o fluxo de tráfego pela infraestrutura acusada, ou detalhes técnicos ligando configurações de servidores a uma operação de espionagem. O Departamento de Justiça dos EUA já indiciou oficiais do FSB no passado por comandar operações criminosas de hacking, incluindo o comprometimento de milhões de contas do Yahoo, o que ressalta o próprio papel do FSB como um ator cibernético ofensivo e torna suas alegações não verificadas a afirmação de um serviço de inteligência rival ativo .
Não é a primeira vez que o FSB acusa empresas de tecnologia ocidentais de serem participantes ativas em operações de inteligência. Em junho de 2023, o FSB alegou que a Agência de Segurança Nacional (NSA) dos EUA explorou uma vulnerabilidade em iPhones da Apple para comprometer dispositivos de milhares de cidadãos russos e diplomatas estrangeiros, e declarou publicamente que a Apple havia “cooperado” com a NSA para os ataques . A Apple negou a alegação, e nenhuma prova forense de suporte foi tornada pública. A semelhança estrutural é notável: uma acusação sem fundamento de que a infraestrutura ou software de uma proeminente empresa de tecnologia ocidental é um instrumento direto de espionagem de Estado, entregue com material de vídeo ou fotográfico, mas sem dados técnicos verificáveis.
A alegação de conluio em hacking de telefones surge no meio de uma campanha documentada de um ano do governo russo para estrangular, bloquear e desacreditar a Cloudflare.
Em outubro de 2024, o Roskomnadzor — a agência reguladora federal de comunicações da Rússia — bloqueou milhares de sites que usavam o protocolo Encrypted Client Hello (ECH) da Cloudflare, uma extensão TLS que criptografa o handshake inicial e dificulta que uma operadora de rede veja qual site um usuário está visitando . Na época, o regulador declarou que o ECH “viola” as regulações russas que regem a capacidade de inspecionar o tráfego.
Em 20 de março de 2025, a campanha escalou dramaticamente quando o Roskomnadzor bloqueou temporariamente faixas inteiras de sub-rede da Cloudflare — compreendendo mais de 500.000 endereços IP, com um especialista técnico do grupo russo de direitos digitais Roskomsvoboda estimando que cerca de 1,5 milhão de endereços IP foram afetados em várias regiões . O bloqueio causou apagões generalizados em sistemas bancários online, incluindo Sberbank e Alfa-Bank, portais do governo, aplicativos de comunicação e serviços de jogos — todos os quais dependiam da CDN da Cloudflare
. Quando usuários e empresas relataram as interrupções, o Roskomnadzor culpou a “infraestrutura de servidores estrangeiros” e recomendou que as organizações russas migrassem para provedores de hospedagem domésticos
.
O ataque técnico mais sustentado começou em 9 de junho de 2025, quando os principais provedores de internet russos — incluindo Rostelecom, Megafon, Vimpelcom, MTS e MGTS — iniciaram uma campanha nacional de estrangulamento contra todo o tráfego que passava pela Cloudflare . O estrangulamento era cirúrgico: permitia que os dispositivos dos usuários baixassem apenas os primeiros 16 kilobytes de qualquer ativo da web antes de cortar a conexão
. Para um navegador moderno, 16 KB são suficientes para renderizar talvez um único cabeçalho HTTP e as primeiras linhas de texto, mas nem de longe o bastante para carregar uma página funcional, um script ou uma folha de estilo. O resultado foi que milhões de sites protegidos pela Cloudflare efetivamente desapareceram para usuários dentro da Rússia, enquanto os sites davam a ilusão de estarem acessíveis para verificações casuais de rede
.
A Cloudflare confirmou publicamente o estrangulamento em 26 de junho de 2025, chamando-o de interferência em nível de Estado além de seu controle . Os dados internos da empresa mostraram que o limite estava sendo aplicado por meio de múltiplos mecanismos concorrentes, incluindo injeção de pacotes e limitação de taxa, indicando gerenciamento ativo em vez de uma má configuração de rede
. A Freedom House e monitores independentes da internet documentaram que o tráfego total da Cloudflare vindo da Rússia havia caído substancialmente, e que as interrupções coincidiram com a adição da Cloudflare pelo Roskomnadzor ao seu registro de “organizadores de disseminação de informação”
. Esse registro é um regime de vigilância que exige que as empresas listadas armazenem dados de usuários russos em servidores locais e forneçam chaves de descriptografia ao FSB sob demanda. As empresas que não cumprem enfrentam estrangulamento obrigatório ou bloqueio total — exatamente o resultado observado desde junho de 2025.
Quando o estrangulamento de junho de 2025 é analisado em conjunto com os bloqueios de sub-rede de março de 2025 e a proibição do ECH de outubro de 2024, surge uma progressão clara: a Rússia primeiro mirou um protocolo de criptografia específico, depois bloqueou faixas de rede inteiras e agora está usando controles técnicos para degradar todo o serviço da Cloudflare indefinidamente. A acusação de espionagem do FSB em 2 de junho de 2026 adiciona uma camada narrativa de conluio criminoso a uma campanha de supressão técnica que já estava em pleno andamento.
As medidas contra a Cloudflare e a Fastly fazem parte de um projeto muito maior e de vários anos do Kremlin para colocar a internet russa sob total controle doméstico — uma estrutura política que o governo chama de “soberania digital”.
Uma nova legislação agora exige que as operadoras de telecomunicações instalem equipamentos estatais de Inspeção Profunda de Pacotes (DPI, na sigla em inglês), conhecidos como sistema de “Meios Técnicos de Combate a Ameaças” (TSPU), que dá ao FSB a capacidade de monitorar, filtrar e estrangular o tráfego no nível da rede . As empresas de telecomunicações que não se registrarem no Roskomnadzor ou não cumprirem as solicitações de dados do FSB enfrentam multas e restrições de serviço.
Em setembro de 2025, as autoridades russas introduziram um “registro de serviços socialmente significativos”, uma lista branca formal de inicialmente 57 sites pré-aprovados — incluindo a agência de notícias estatal RIA Novosti, grandes bancos, o portal do governo Gosuslugi, redes sociais domésticas e serviços selecionados do Yandex — que têm a garantia de permanecer acessíveis durante interrupções de rede e testes de desligamento . Qualquer serviço hospedado no exterior que não esteja na lista pode ser cortado a qualquer momento.
O governo também agiu com força contra comunicações criptografadas e ferramentas de circumvenção. No início de 2026, o Roskomnadzor havia restringido centenas de aplicativos e protocolos de VPN . Em agosto de 2025, chamadas de voz e vídeo pelo Telegram e WhatsApp foram restringidas, e restrições diretas ao próprio Telegram logo se seguiram
.
A trajetória é inequívoca. A abordagem da Rússia evoluiu de bloqueios de sites direcionados há uma década, passando por filtragem baseada em DPI em larga escala, para a fase atual em que provedores inteiros de infraestrutura e distribuição de conteúdo ocidentais são sistematicamente degradados, desconectados ou sujeitos a acusações criminais oficiais. O objetivo é um espaço de internet russo em que todo o tráfego seja inspecionável pelo FSB e a infraestrutura estrangeira não tenha nenhuma base operacional .
A alegação de 2 de junho de 2026 contra a Cloudflare e a Fastly é o mais recente capítulo desse projeto. É uma acusação de espionagem sem fundamento lançada contra as mesmas empresas cuja infraestrutura a Rússia passou dois anos metodicamente tornando inacessível aos seus próprios cidadãos.
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