A causa é simples de explicar: treinar e operar grandes modelos de inteligência artificial consome quantidades colossais de memória. Operadores de data centers de hiperescala (como Google e Amazon) absorveram tanta produção que os "três grandes" do setor — Samsung, SK Hynix e Micron, que juntos controlam mais de 90% do mercado global de DRAM — estão, na prática, priorizando os chips para IA em detrimento de todo o resto .
Essa inclinação estrutural significa que os módulos de DRAM e NAND Flash para notebooks, desktops e smartphones deixaram de ser o foco da indústria. A capacidade produtiva está fluindo para memória de servidores e para as famosas pilhas HBM que se conectam diretamente aos aceleradores de IA. A consequência é uma oferta permanentemente baixa de memória para o mercado de consumo, que analistas agora acreditam que vai durar anos, não meses .
A magnitude do movimento de preços não tem precedentes modernos. A TrendForce originalmente previa um aumento trimestral de 55% a 60% para o primeiro trimestre de 2026, mas revisou sua projeção para 90% a 95% em fevereiro, quando a oferta se mostrou ainda mais apertada do que o esperado . Em junho, os dados finais revelaram uma escalada ainda maior, de 93% a 98%
.
A memória para PCs foi a maior protagonista desse caos. Os preços de contrato de DRAM para PC subiram mais de 100% em um único trimestre — um recorde histórico para um salto trimestral . A DRAM para servidores teve um aumento de cerca de 90% no mesmo período
. Para o segundo trimestre, a TrendForce espera que a DRAM convencional encareça mais 58% a 63% e a NAND Flash acelere ainda mais, subindo de 70% a 75%, após o pico de 55% a 60% no primeiro trimestre
.
No varejo, os preços deram sinais de estabilização em meados de 2026, pois os patamares altíssimos reduziram a demanda do consumidor final. Mas os contratos de fornecimento — que determinam o preço que fabricantes de PCs e grandes empresas pagam — permanecem em níveis recordes. Um kit de 64 GB DDR5 hoje custa, em média, quase US$ 900 (cerca de R$ 4.800). Compradores parecem ter batido o pé e se recusado a pagar mais, criando um "teto" temporário; ainda assim, nenhuma grande consultoria ou fabricante prevê alívio significativo no curto prazo .
Vários protagonistas do mercado fizeram alertas públicos explícitos nas últimas semanas.
Lexar: Chris Xia, gerente regional da Lexar para Austrália e Nova Zelândia, disse ao site Tom’s Hardware no início de junho de 2026 que os preços de RAM devem dobrar até o fim do ano. Ele alertou que a construção da infraestrutura de IA está consumindo praticamente todos os chips de memória disponíveis da Samsung, SK Hynix e Micron .
Samsung: Durante a teleconferência de resultados do primeiro trimestre, em 30 de abril, o chefe da divisão de memória, Kim Jaejune, afirmou que "escassez significativa" de produtos de memória continuará pelo menos até 2027, com taxas de atendimento da demanda em mínimas históricas. Clientes, segundo ele, já reservam capacidade de produção para os próximos anos .
SK Hynix: Emitiu alertas semelhantes. Uma análise interna da SK Hynix, vazada em dezembro de 2025, projetou que a escassez de DRAM convencional, excluindo módulos especiais e HBM, persistiria até 2028 — uma previsão bem mais pessimista que o consenso da época .
Apple: Embora a Apple não tenha feito nenhuma declaração pública nos mesmos termos, relatos de mercado indicam que a empresa enfrentou desafios sérios para garantir seu suprimento. A escassez ameaça lançamentos de produtos e elevou os preços de notebooks em aproximadamente 40% .
Em 3 de junho de 2026, uma coalizão intersetorial de nove associações comerciais americanas enviou uma carta conjunta ao secretário do Tesouro, Scott Bessent, e ao secretário de Comércio, Howard Lutnick, alertando sobre "um desequilíbrio urgente no mercado de chips de memória". Os signatários representam provedores de banda larga, fabricantes de dispositivos médicos, montadoras de veículos e grandes redes varejistas .
O argumento central é que a expansão dos data centers de IA está consumindo uma "parcela enorme da capacidade disponível de chips de memória", elevando os preços e reduzindo a oferta para fabricantes muito além do setor de tecnologia. Sem intervenção do governo, alertam, a crise ameaça aumentar os custos ao consumidor e provocar rupturas em cascata nas cadeias de suprimentos da economia americana .
Essa carta é um marco porque tira a crise da memória da bolha dos semicondutores. Não é mais um problema só para quem monta PCs ou compra servidores: a indústria automotiva, de saúde e de telecomunicações agora está, formalmente, em estado de alerta.
A escassez já se alastrou para muito além da eletrônica de consumo:
Os três fabricantes dominantes estão investindo em capacidade adicional, mas novas plantas para memória convencional não estarão operacionais antes de 2027 ou 2028 . No curto prazo, simplesmente não há solução do lado da oferta. Samsung e SK Hynix continuam priorizando a alocação de HBM e DRAM para servidores, deixando o mercado de DRAM convencional em "modo de sobrevivência"
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Há ainda possíveis desdobramentos geopolíticos. Em janeiro de 2026, a Casa Branca anunciou uma ação tarifária em duas fases sobre semicondutores, e o secretário de Comércio Howard Lutnick advertiu que certos fabricantes de chips de memória poderiam enfrentar tarifas de 100% caso não construíssem fábricas em solo americano . Qualquer escalada dessas medidas tende a apertar ainda mais o mercado para compradores americanos — e potencialmente para o mundo.
Enquanto isso, congressistas americanos já pediram que chips de memória, especialmente a memória de alta largura de banda usada nos aceleradores Nvidia Blackwell e H200, sejam incluídos nas listas de controle de exportação . A interseção entre uma crise comercial de oferta, ações tarifárias e controles de tecnologia torna o cenário incrivelmente complexo.
O consenso de todas as grandes consultorias e fabricantes é de que não há solução de curto prazo. A Samsung projeta escassez pelo menos até 2027. A análise interna da SK Hynix aponta até 2028. A Lexar acredita que os preços ao consumidor vão dobrar novamente até o fim de 2026. A TrendForce mostra que o ritmo dos aumentos trimestrais diminuiu um pouco depois do pico do primeiro trimestre, mas os preços continuam subindo rapidamente a partir de uma base já elevadíssima .
Para quem está pensando em montar ou trocar de PC, a conta mudou. Os preços no mercado à vista se estabilizaram momentaneamente no início de 2026 porque a demanda recuou diante dos valores estratosféricos, mas os preços de contrato — que são os que ditam o custo real de fabricação — continuam subindo . A janela de preços "normais" de RAM se fechou no fim de 2025, e há um consenso amplo de que ela não se reabrirá por pelo menos 18 a 24 meses.