O quadro de fevereiro era mais condicional. Um relatório de 19 de fevereiro disse que Hayes traçou dois caminhos após uma grande correção do Bitcoin: nova queda se as bolsas desandassem e a liquidez apertasse, ou retomada rumo a cerca de US$ 126 mil se a correção já tivesse terminado e uma intervenção do Fed melhorasse as condições de liquidez.
Uma das afirmações que circulam é a de que Hayes teria apontado 28 de fevereiro de 2026 como o início do novo mercado de alta. Nos materiais disponíveis, porém, não há registro direto dessa frase ou dessa data.
A evidência mais próxima é o relato sobre um ensaio de 17 de fevereiro, no qual ele analisou a queda do Bitcoin de uma máxima próxima de US$ 126 mil em outubro de 2025 para a região de US$ 60 mil e tratou esse ponto como uma inflexão condicional.
O que está bem documentado é a lógica da virada: Hayes acompanha se a liquidez e o crédito estão se expandindo ou contraindo. A agenda do Bitcoin 2026 resume sua tese como focada em liquidez, criação de dinheiro, deflação causada por IA e gastos de guerra, com ênfase em petróleo, liquidez em dólar e criação de crédito, não apenas em manchetes geopolíticas.
Hayes descreve o Bitcoin como um alarme global de liquidez fiduciária — ou seja, um ativo negociado livremente que reage com força à oferta de crédito emitido no sistema financeiro tradicional.
Na prática, a tese é simples: se bancos centrais, bancos comerciais e governos aumentam crédito ou gastos, parte dessa liquidez pode migrar para ativos de risco. Hayes coloca o Bitcoin entre os ativos que mais poderiam responder a esse movimento. Mas há o outro lado: se a liquidez apertar, seu próprio cenário de fevereiro admitia nova pressão de baixa, e não uma alta em linha reta.
A agenda do Bitcoin 2026 afirma que Hayes tratou a inteligência artificial tanto como um possível choque deflacionário quanto como uma fonte de grande gasto de capital. Resumos da PANews e da Binance dizem que ele argumentou que a IA poderia substituir muitos trabalhadores do conhecimento e gerar perdas de crédito relevantes no sistema bancário, em uma dinâmica comparada a uma nova crise subprime.
À primeira vista, isso parece baixista. Mas o argumento relatado é que, diante de um estresse de crédito desse tipo, formuladores de política econômica responderiam com mais criação de dinheiro e suporte ao crédito. A mesma agenda do Bitcoin 2026 também diz que Hayes conectou os investimentos em infraestrutura de IA a uma onda maior de criação de crédito.
A chamada de US$ 125 mil para o Bitcoin foi explicitamente associada, nos relatos, a gastos militares em contexto de guerra injetando dinheiro nos mercados. Um trecho de seu ensaio de maio de 2026 no Substack diz que uma guerra em curso catalisava apoio político e bancário para acelerar o crescimento do crédito.
PANews e Binance também relataram que Hayes citou uma postura de guerra dos EUA e um aumento de orçamento de defesa de cerca de 50%, para US$ 1,5 trilhão, como razões para o governo não cortar gastos, mas criar mais caixa. Esses números devem ser lidos como elementos relatados do argumento de Hayes, não como dados orçamentários verificados de forma independente dentro deste conjunto de fontes.
Aqui vale não exagerar. As fontes sustentam uma leitura mais estreita do que a expressão genérica investimento em infraestrutura. O resumo do Bitcoin 2026 menciona especificamente capex de infraestrutura de IA, financiamento de recursos e gastos de guerra dentro do arcabouço de criação de dinheiro de Hayes.
Ou seja: há base para falar de infraestrutura de IA e recursos. Não há detalhe suficiente, nos materiais disponíveis, para transformar isso em um motor amplo e separado de obras de infraestrutura em geral.
Esta é a parte mais sólida da tese documentada. Relatos dizem que Hayes apontou desregulação bancária nos EUA e aumento de empréstimos como fontes de liquidez capazes de sustentar o Bitcoin.
O Bitcoin.com afirmou que a regra Enhanced Supplemental Leverage Ratio, ou ESLR, em vigor desde 1º de abril, poderia gerar US$ 1,3 trilhão em novos empréstimos. A CryptoRank também citou uma estimativa da S&P de capacidade adicional de crédito ligada à mudança regulatória.
Outras coberturas dizem que Hayes esperava expansão de liquidez por meio de crescimento do balanço do Fed, aumento de empréstimos bancários e queda nas taxas de hipoteca nos EUA. A DL News também relatou, em janeiro, que ele via a volta de fluxos para o Bitcoin por três canais, incluindo compras de gerenciamento de reservas do Fed e bancos comerciais.
As fontes apoiam o ceticismo mais amplo de Hayes em relação ao sistema fiduciário liderado pelo dólar, mas não documentam com firmeza a queda de confiança em ativos em dólar como um motor isolado da meta mais recente de US$ 125 mil.
Em um trecho de Substack, ele argumentou que gestores de reservas de bancos centrais que desconfiam do sistema fiduciário liderado pelo dólar compram ouro, não Bitcoin.
A leitura mais limpa, portanto, é esta: a previsão recente de Hayes para o BTC é principalmente sobre liquidez em dólar e expansão de crédito. Suas críticas ao sistema monetário baseado no dólar existem, mas não são a peça mais bem documentada da chamada de US$ 125 mil.
A cobertura do Bitcoin 2026 mostra um Hayes mais otimista. Resumos da PANews e da Binance dizem que ele estava mais bullish, ou seja, mais comprado na tese de alta, e esperava que o Bitcoin continuasse subindo.
Uma listagem de YouTube vai além e afirma que seu posicionamento estava quase totalmente risk-on, isto é, assumindo mais risco. Mas os materiais disponíveis não trazem a composição detalhada da carteira, nem pesos, tamanhos de posição ou mudanças específicas de alocação.
Isso importa porque Hayes já combinou otimismo estrutural com cautela tática. Em um trecho de janeiro de 2024, ele disse que já havia alocado capital suficiente para aquela fase do ciclo e se preparava para uma forte limpeza de turistas cripto. Em abril de 2024, outro trecho alertava que as condições favoráveis de março não necessariamente se repetiriam em abril.
A conclusão mais segura é que o discurso atual está mais inclinado ao risco do que aquelas notas cautelosas anteriores. Mas as fontes não verificam mudanças exatas de alocação, tamanhos de trade ou peso de carteira.
A própria estrutura de Hayes aponta os riscos. Se as bolsas caírem forte e a liquidez apertar, o relatório de fevereiro dizia que o Bitcoin poderia sofrer nova queda em vez de uma recuperação limpa.
Também há risco de a liquidez não aparecer como esperado. Se o balanço do Fed, o crédito bancário ou os canais ligados a hipotecas não se expandirem, a tese de janeiro perde força.
E há uma tensão interna no argumento da IA: Hayes vê a inteligência artificial como potencial choque de deflação de crédito para trabalhadores, empresas de software e bancos, mas sua conclusão altista para o Bitcoin depende de os formuladores de política compensarem esse estresse com ainda mais criação de crédito.
A versão mais bem sustentada da previsão de Arthur Hayes é um Bitcoin perto de US$ 125 mil até o fim do ano, com a alta apoiada por liquidez em dólar, gastos de guerra e criação de crédito bancário.
Sua tese mais ampla também inclui disrupção causada por IA, investimentos em infraestrutura de IA e gasto fiscal como razões para governos e bancos manterem a liquidez fluindo.
Mas nem tudo que circula ao redor dessa narrativa tem a mesma solidez. A data exata de 28 de fevereiro de 2026 como início do bull market, o nível separado de US$ 90 mil, a meta de US$ 145 mil e mudanças detalhadas de portfólio aparecem ausentes das fontes mais fortes ou documentadas apenas de forma fraca.
O ponto prático para o leitor não é tratar qualquer alvo como garantido. É entender que Hayes está olhando para o Bitcoin como um ativo macro extremamente sensível à liquidez — e que sua tese de alta depende de a expansão de crédito continuar.