A ressalva é importante: os relatos disponíveis não mostram uma decisão formal já publicada pela UE nem um mecanismo pronto de acesso. O que há, por ora, são conversas, briefings técnicos, monitoramento regulatório e pressão política .
Nos relatos, o Mythos aparece como um modelo capaz de identificar falhas em código de computador . Para um banco, isso pode ter uso defensivo direto: revisar sistemas próprios, priorizar correções e fechar brechas antes que atacantes as explorem.
O Handelsblatt informou, com base em fontes, que a Anthropic pretende dar a bancos europeus acesso ao modelo em breve para que testem seus sistemas de computador, encontrem possíveis vulnerabilidades e corrijam falhas de segurança . As fontes, porém, divergiam sobre o prazo: as estimativas iam de poucos dias a algumas semanas
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Há ainda um problema de assimetria. A Reuters relatou que, até então, o Mythos tinha sido disponibilizado apenas a alguns bancos dos Estados Unidos . The Next Web acrescentou que nenhum governo da UE tinha acesso ao modelo
. Para reguladores europeus, avaliar uma ferramenta desse porte apenas por briefings, relatos e conversas deixa pontos cegos — especialmente quando alguns bancos dos EUA já foram citados como tendo acesso ao sistema
.
O desconforto dos supervisores vem do caráter de dupla utilização. Segundo a Reuters, especialistas em cibersegurança veem o Mythos como um possível acelerador de ataques contra sistemas de TI de bancos . Nagel descreveu o modelo como aparentemente capaz de identificar e explorar rapidamente vulnerabilidades em software de instituições financeiras; ao mesmo tempo, disse que ele poderia melhorar a defesa digital ou ser usado de forma indevida
.
Autoridades alemãs acompanham o tema de perto. O BSI, órgão federal alemão responsável por segurança da informação, afirmou segundo a ZDF que um modelo voltado a encontrar vulnerabilidades ocultas em software poderia ter impacto significativo no cenário de ameaças cibernéticas . A Bafin, autoridade alemã de supervisão financeira, também examina intensamente os riscos do Mythos e de modelos semelhantes, porque esses sistemas podem encontrar falhas de segurança de forma autônoma e em grande escala
.
The Next Web relatou ainda que o Mythos poderia encontrar vulnerabilidades zero-day — falhas desconhecidas pelo fornecedor ou ainda sem correção pública — em grandes sistemas operacionais e navegadores . Essa afirmação deve ser lida como parte da reportagem disponível: o que está publicamente documentado com mais clareza é que a Comissão recebeu informações técnicas da Anthropic e agora avalia possíveis implicações
.
A disputa sobre acesso não é só uma questão de segurança bancária. Ela também toca a arquitetura europeia de regulação da inteligência artificial. A Bloomberg informou que o AI Office, órgão da Comissão Europeia dedicado ao tema, está em diálogo com a Anthropic sobre a implementação do Código de Conduta da UE para sistemas de IA de uso geral, no contexto do AI Act . O Investing.com também relatou, citando um porta-voz da Comissão, que a Anthropic se comprometeu a cumprir esse código europeu
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Na prática, a pergunta para a Europa é dupla: como aproveitar um sistema de IA poderoso para defesa cibernética e, ao mesmo tempo, como limitar uma capacidade que pode ser perigosa se cair nas mãos erradas ou for distribuída sem controles suficientes .
A discussão não se resume a liberar ou proibir. Pouco acesso deixaria bancos e supervisores europeus avaliando uma ferramenta potencialmente crítica à distância. Acesso demais, ou mal distribuído, poderia espalhar exatamente as capacidades que preocupam os reguladores .
Alguns caminhos possíveis seriam testes diretos por instituições selecionadas, varreduras conduzidas pela própria Anthropic, um processo conjunto com supervisores financeiros ou a entrega, aos bancos afetados, de vulnerabilidades já verificadas. Nenhum desses mecanismos foi confirmado publicamente; os relatos conhecidos falam em conversas, possíveis testes e um caminho de acesso ainda em aberto .
A Europa não está pedindo, com base no que se sabe, que o Mythos seja aberto ao público. O que está em jogo é a criação de uma forma controlada de examinar uma IA capaz de encontrar falhas em sistemas críticos. Para bancos, isso pode significar descobrir problemas antes dos atacantes. Para reguladores, significa lidar com uma ferramenta que também pode tornar ataques mais rápidos e sofisticados .
Por isso, o mecanismo de acesso é o verdadeiro centro da disputa: a Europa não quer ficar no escuro, mas também não quer transformar uma tecnologia de proteção em uma nova fonte de risco.