O que explica essa trajetória de desvalorização? Uma combinação de fatores, que pode ser resumida em quatro grandes eixos:
1. Fim das isenções fiscais para pequenas encomendas
O modelo de negócios da Shein depende do envio direto de pequenos pacotes da China para consumidores no exterior. Durante anos, a empresa se beneficiou da regra do de minimis nos Estados Unidos (que isentava de impostos importações abaixo de US$ 800) e de regimes semelhantes na Europa e no Brasil . Em fevereiro de 2025, os EUA eliminaram essa isenção para produtos chineses e impuseram uma tarifa de 10% sobre essas importações . A União Europeia, por sua vez, passou a cobrar uma taxa de €3 sobre encomendas de baixo valor a partir de julho de 2026 . Essas mudanças encarecem o frete, a burocracia aduaneira e a manutenção dos preços baixos — a principal arma competitiva da Shein. Investidores, ao verem essa vantagem desaparecer, reduziram as projeções de lucro e fluxo de caixa da empresa .
2. Crescimento mais lento e margens apertadas
Em 2024, o lucro da Shein caiu quase 40%, para cerca de US$ 1 bilhão . O prospecto do IPO em Hong Kong, divulgado em julho de 2026, mostrou crescimento mais lento e queda acentuada na rentabilidade . Em um cenário de economia global incerta e juros altos, investidores passaram a dar mais peso à geração de lucro do que ao potencial de crescimento. A Shein, que antes era avaliada como uma empresa de altíssimo crescimento, agora precisa provar que consegue ser lucrativa mesmo com custos maiores — e isso não é fácil .
3. Concorrência feroz, especialmente da Temu
A Shein já não é mais a única plataforma chinesa de e-commerce a vender roupas e acessórios extremamente baratos no Ocidente. A Temu, do grupo Pinduoduo, adotou a mesma estratégia de preços baixos, subsídios agressivos e marketing pesado, forçando a Shein a gastar mais para conquistar e reter clientes . Essa briga eleva o custo de aquisição de clientes e comprime a margem bruta. Para os investidores, a Shein deixou de ser um 'pote de ouro' sem concorrentes e passou a ser mais uma peça em um mercado cada vez mais saturado e caro .
4. Riscos regulatórios e o eterno adiamento do IPO
A Shein tentou abrir capital em Nova York, depois em Londres e, agora, o plano é em Hong Kong. Cada tentativa frustrada gerou atrasos e incertezas . Ao mesmo tempo, a empresa enfrenta investigações sobre condições de trabalho em sua cadeia de fornecedores (incluindo uma audiência no parlamento britânico), alegações de uso de algodão da região de Xinjiang e falta de transparência sobre dados e práticas trabalhistas . Esse ambiente de risco regulatório faz com que investidores exijam um 'desconto' maior para comprar ações da Shein, tanto no mercado privado quanto no futuro IPO .
Em resumo: a Shein não está necessariamente 'falida' ou vendendo menos, mas o mundo ao seu redor mudou. As regras do jogo — tarifas, concorrência, regulação — se tornaram muito mais desafiadoras. O valuation de US$ 100 bilhões refletia uma aposta em um modelo imbatível; o valuation de US$ 30 bilhões reflete a realidade de que esse modelo agora precisa se adaptar a um ambiente muito menos favorável .