Na reunião de 24 de fevereiro de 2026, Putin afirmou que o FSB deveria usar plenamente seus recursos humanos, técnicos, operacionais e analíticos para eliminar ameaças em tempo hábil e preservar a estabilidade da Rússia.
O pedido mais concreto foi ampliar a segurança de funcionários do Ministério da Defesa russo, dirigentes de empresas da indústria de defesa e autoridades regionais e locais. Putin também mencionou medidas extras, sob coordenação do Comitê Nacional Antiterrorismo, para proteger instalações de energia e transporte, espaços públicos, representantes do setor militar-industrial, autoridades locais, além de trabalhadores de educação e assistência social.
Ou seja: a medida descrita nas fontes abertas parece menos uma mudança pontual na guarda pessoal de Putin e mais uma tentativa de estruturar uma rede de proteção para áreas consideradas sensíveis pelo Estado russo — defesa, indústria militar, infraestrutura e administração pública.
Putin afirmou que, por não conseguir impor à Rússia um “golpe estratégico” no campo de batalha, o inimigo teria passado a recorrer a métodos de terrorismo individual e coletivo, incluindo bombardeios contra cidades, sabotagem de infraestrutura e assassinatos de autoridades civis e militares.
Ele também disse que os crimes de terrorismo dentro da Rússia aumentaram no ano anterior e atribuiu a “grande maioria” deles aos serviços especiais ucranianos e a seus apoiadores estrangeiros.
Essa atribuição, porém, deve ser lida com cautela: trata-se da versão apresentada por Moscou, e os relatos disponíveis não trazem uma cadeia completa de provas verificáveis por observadores independentes.
Outro ponto destacado por Putin foi o aumento significativo de ataques com mísseis e drones contra infraestrutura russa, instituições sociais e administrativas e áreas residenciais.
Isso ajuda a explicar por que Moscou passou a falar, no mesmo pacote, de proteção a instalações de energia, transporte, locais públicos, regiões de fronteira e órgãos de segurança. A lógica russa é tratar esses riscos como parte de uma ameaça integrada, ligada à guerra e à segurança interna.
Há também um pano de fundo mais explosivo: a Rússia afirmou que uma residência de Putin na região de Novgorod, no noroeste do país, teria sido alvo de uma operação com drones. Segundo relato publicado pela agência Xinhua, o Ministério da Defesa russo divulgou em 31 de dezembro de 2025 que 91 drones ucranianos teriam partido de diferentes direções na noite de 28 de dezembro para atacar a residência.
Mas essa versão não foi aceita por todos. A mesma reportagem registrou que a Ucrânia e países europeus classificaram a alegação russa como “falsa” ou “sem provas”; o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, disse que se tratava de uma “pura fabricação”.
Por isso, esse episódio pode explicar por que Moscou reforça o discurso sobre “segurança presidencial” e “ameaça terrorista”, mas não deve ser tratado automaticamente como fato confirmado de forma independente.
O Kremlin já vinha falando publicamente sobre a proteção de Putin antes desse episódio. Em julho de 2024, após perguntas de jornalistas sobre tentativas de assassinato contra o primeiro-ministro da Eslováquia, Robert Fico, e o ex-presidente dos Estados Unidos Donald Trump, o porta-voz Dmitry Peskov disse que a Rússia já havia tomado “todas as medidas necessárias” para garantir a segurança do presidente russo.
Peskov também afirmou que, diante da escalada geral das tensões internacionais, era necessário assegurar ao chefe de Estado um nível adequado de proteção.
Isso sugere que a reunião de fevereiro de 2026 não marcou necessariamente uma ruptura repentina, mas uma ampliação e institucionalização de um estado de alerta já elevado. A segurança pessoal de Putin faz parte do quadro, mas o foco anunciado inclui também Defesa, indústria militar, governos locais e infraestrutura crítica.
Com as informações públicas disponíveis, não dá para concluir que o Kremlin tenha apresentado uma ameaça iminente e independentemente confirmada de assassinato contra Putin. O que se pode afirmar é que Moscou vinculou o reforço de segurança a drones, sabotagens, ataques contra autoridades e ao que chama de “terrorismo”.
Ao mesmo tempo, algumas acusações específicas — sobretudo a de ataque à residência presidencial — continuam contestadas por Ucrânia e Europa e não contam, nos relatos disponíveis, com comprovação pública transparente e independente.
A interpretação mais segura é que a Rússia está ampliando seu perímetro de proteção e enquadrando riscos ligados à guerra como ameaças terroristas e externas. A decisão de reforçar a segurança de autoridades, setores estratégicos e infraestrutura tem respaldo em relatos públicos; já cada alegação concreta, especialmente quando envolve ataques diretos contra Putin, precisa ser tratada com cautela até que haja evidências independentes mais claras.