A comunidade gamer reagiu com fúria. A revista Forbes descreveu a decisão como "o maior escândalo da Sony em 20 anos", informando que 99% das respostas ao anúncio nas redes sociais expressavam indignação. O Business Insider destacou que o post de anúncio no X (antigo Twitter) acumulou 145 milhões de visualizações e 90 mil respostas em poucos dias, com a esmagadora maioria sendo negativa.
Dias ou semanas depois — a data exata varia conforme o veículo, mas a cobertura se concentrou entre 26 e 27 de julho — a divisão Sony Electronics (uma unidade de negócios separada do PlayStation) promoveu o toca-discos de vinil PS-LX3BT nas redes sociais. O post dizia: "Redescubra o calor, o detalhe e o ritual do vinil com o LX3 Turntable. Coloque a agulha e ouça sua música do jeito que ela foi feita para ser ouvida."
Os jogadores inundaram as respostas com acusações de hipocrisia. Se a Sony ainda acredita em mídia física a ponto de vender um toca-discos de US$ 399,99 (cerca de R$ 2.300 em conversão direta) celebrando os discos de vinil, por que a mesma empresa está matando os discos de jogos? O site PushSquare chamou a promoção de "surda". O GamesRadar a descreveu como o "mais recente golpe de mestre de relações públicas" da Sony e citou um comentarista dizendo: "Se você pode fazer físico para música, pode fazer para jogos."
Vários veículos informaram que o post acumulou mais de 3 mil comentários, a maioria criticando o fim dos discos. As reações foram tão intensas que o anúncio do toca-discos se tornou uma segunda frente na batalha maior pela mídia física nos games.
A expressão mais organizada da raiva dos jogadores foi a petição "Don't Kill the Disc" (Não Mate o Disco) no Change.org, iniciada por Jade Pearce, CEO da PNP Games, uma loja de videogames em Winnipeg, no Canadá. A petição argumentava: "Um disco é um jogo real que você possui. Você pode emprestá-lo, trocá-lo, revendê-lo, dá-lo de presente, colecioná-lo ou passá-lo para seus filhos. Uma caixa com apenas um código de download não é a mesma coisa."
Reunindo 40 mil assinaturas nas primeiras 48 horas, a petição cruzou a marca de 117 mil em quatro dias, chegou a 250 mil em pouco mais de uma semana e ultrapassou 320 mil em 17 de julho. Em 20 de julho, a CTV News informou que o número já excedia 333 mil assinaturas.
As contas oficiais do PlayStation nas redes sociais ficaram quase totalmente silenciosas por dias após o início da reação negativa. Quando finalmente postaram, foi para promover um controle de luta (fight stick) de terceiros, e não para abordar a polêmica dos discos — uma atitude que só aumentou a irritação.
Nos bastidores, a situação era mais controlada. De acordo com Alanah Pearce, ex-roteirista do Santa Monica Studio, a Sony impôs o que insiders chamaram de diretrizes de mídia social 'mais rígidas de todos os tempos' para os desenvolvedores first-party, criando efetivamente uma 'mordaça' para impedi-los de comentar ou criticar o fim dos discos. O site TweakTown descreveu a política como tendo como objetivo evitar que os desenvolvedores "aumentassem as críticas em torno da decisão da empresa".
Yves Guillemot (CEO da Ubisoft) — Durante a teleconferência de resultados do primeiro trimestre do ano fiscal de 2027 da Ubisoft, em 23 de julho, Guillemot foi questionado sobre o fim dos discos da Sony. Ele argumentou que a decisão "não vai perturbar muito a indústria", apontando o mercado de jogos para PC como prova de que a migração para o digital "ajudou a fazer o mercado crescer". Ele também observou que consoles sem leitor de disco podem ser mais baratos de fabricar, o que poderia beneficiar os consumidores. Embora reconhecendo prós e contras, ele viu um saldo positivo para as publicadoras.
Chet Faliszek (ex-roteirista da Valve, Left 4 Dead) — Em um vídeo no YouTube em 20 de julho, Faliszek colocou a culpa diretamente nos próprios jogadores. "Você, o consumidor, fez uma escolha, e sua escolha é pelo digital", disse ele. Ele argumentou que os consumidores que votam com suas carteiras há anos — comprando jogos digitais em vez de físicos — causaram a mudança, e não uma conspiração corporativa. "Agora mesmo, hoje — os jogos de que estamos falando estão disponíveis no varejo hoje. Os jogos usados estão disponíveis no varejo hoje, e vocês não estão indo a essas lojas", disse Faliszek. Seus comentários foram amplamente compartilhados e geraram discussão significativa na mídia especializada.
Talvez o sinal mais forte de que o fim dos discos da Sony é irreversível seja o que está acontecendo na fábrica da Sony DADC em Thalgau, Áustria — a maior instalação de fabricação de discos ópticos da Sony. A fábrica produz atualmente cerca de 600 mil discos por dia, aproximadamente metade dos quais são para o PlayStation.
De acordo com um relatório da emissora pública austríaca ORF Salzburg (coberto pelo The Verge e outros veículos), a Sony já começou a reestruturar a fábrica para fabricar microlentes ópticas em vez de discos de jogos. A Sony investiu de €30 a €34 milhões (cerca de US$ 34 milhões) na conversão e está retreinando todos os 300 funcionários para trabalhar com a nova tecnologia. Até 2028, a produção de discos para PlayStation na instalação deve cair para apenas 10% do volume atual.
Uma alegação específica circulou durante a controvérsia: a de que uma denúncia antitruste havia sido protocolada no México argumentando que a PlayStation Store se tornaria um monopólio ilegal sem os discos como alternativa competitiva. Embora a preocupação antitruste mais ampla — de que a eliminação dos discos remove a única concorrência real à loja digital proprietária da Sony — tenha sido amplamente discutida na cobertura, nenhuma denúncia formal protocolada no México pôde ser verificada nos resultados de pesquisa revisados para este artigo. Essa afirmação permanece não confirmada e exigiria verificação adicional junto a fontes regulatórias mexicanas.
A posição oficial da Sony permanece inalterada desde o post do blog de 1º de julho: a empresa vê o fim dos discos como uma adaptação inevitável às tendências do consumidor. A petição, embora simbolicamente poderosa, não recebeu qualquer reconhecimento público da liderança do PlayStation. A reestruturação da fábrica na Áustria sugere que o cronograma está definido, independentemente da reação.
Para os jogadores que valorizam a posse física, a preservação dos jogos e a capacidade de revender ou trocar títulos, os próximos 18 meses podem representar a janela final para comprar novos jogos de PlayStation em disco. O PS5, ao que tudo indica, será o último console PlayStation a lançar novos jogos em mídia física.