Para investidores que olharam apenas os números de manchete, a realização pareceu confusa. Mas uma leitura mais atenta do relatório completo revela quatro fatores distintos que levaram à reação negativa do mercado.
O principal motivo para o declínio foi o abismo entre os resultados "comparáveis" e os "reportados" (padrão contábil). Enquanto o lucro operacional comparável pareceu forte, os números contábeis contaram uma história bem diferente.
Na base reportada, a Nokia registrou um prejuízo operacional de €50 milhões e lucro líquido de apenas €2 milhões, uma queda acentuada em relação aos €90 milhões do ano anterior . Pesados encargos de reestruturação e outros custos — incluindo cerca de €800 milhões para o ano completo de 2026, com €350 milhões relacionados à integração de operações na China — consumiram a rentabilidade reportada . Um encargo de reestruturação de €390 milhões apenas no 2º trimestre empurrou a margem operacional reportada para -1,0% .
Os investidores focaram nessas perdas reais, em vez dos números ajustados.
A narrativa de crescimento da Nokia em IA é real, mas tem um teto. O CEO Justin Hotard disse à Bloomberg em 23 de julho que a memória continua sendo a maior restrição de oferta do setor, e a administração espera que a escassez continue até 2027 .
"A demanda continua forte, enquanto a oferta continua sendo a principal restrição do setor", disse Hotard, observando que os clientes estão fazendo pedidos de prazo mais longo como resultado . Embora isso traga visibilidade de pedidos, também significa que a Nokia não pode converter totalmente a demanda de IA em receita enquanto componentes-chave permanecerem escassos.
Na teleconferência de resultados, Hotard acrescentou que as restrições de memória e silício de ponta levaram a empresa a "alongar os prazos de entrega" e buscar melhor visibilidade dos clientes .
A Nokia elevou sua previsão de lucro operacional comparável para o ano completo de 2026 para €2,1–€2,6 bilhões. Mas uma análise mais detalhada mostra que o aumento foi efetivamente irrelevante.
A revisão foi um ajuste técnico de €0,1 bilhão decorrente da reclassificação de dois negócios — Fixed Wireless Access CPE e Enterprise Campus Edge — como operações descontinuadas . A perspectiva subjacente para operações continuadas foi essencialmente inalterada .
Analistas e traders trataram o aumento como um não evento — ou pior, uma distração .
Embora a receita de IA e Nuvem tenha dobrado para €446 milhões (9,3% das vendas totais), o negócio principal da Nokia de vender equipamentos de rede para operadoras móveis tradicionais continuou enfrentando demanda em declínio .
Os ADRs da Nokia caíram junto com os da rival Ericsson, sinalizando uma pressão generalizada sobre as empresas europeias de equipamentos de telecomunicações . O mercado viu uma empresa com um negócio de IA de rápido crescimento e um negócio legado muito maior e em encolhimento — e pesou mais este último.
O CFO Wiren observou na teleconferência que a empresa agora espera ficar no piso de sua faixa de conversão de fluxo de caixa livre de 55% a 75%, em parte devido aos custos mais altos de reestruturação . O fluxo de caixa livre no 2º trimestre foi negativo em €732 milhões .
Conclusão: A queda da Nokia não foi uma rejeição de sua estratégia de IA. Foi uma resposta clara do mercado a um prejuízo reportado, restrições de oferta que limitam o potencial da IA, um aumento de guidance tecnicamente vazio, pressão crescente no setor de telecomunicações tradicional e deterioração do fluxo de caixa — fatores que superaram o resultado positivo do lucro comparável .